"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)
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sábado, 19 de maio de 2012

Construir sentidos

A gente tem que se enganar para sobreviver; tem que fingir que as coisas têm sentido; tem que levar as pessoas a acreditarem que sabemos o que estamos fazendo. Apenas jogamos o jogo, não temos escolha. Nascemos num determinado meio, estamos condicionados a ele. Podemos escapar um pouco aqui e ali, como faríamos numa canoa furada, mas não há saída completa, não há tempo para ela, a gente precisa alcançar o porto, ou imagina que precisa. Nunca o alcançaremos, é claro... A canoa afundará antes disso.

- Henry Miller


terça-feira, 5 de outubro de 2010

A vida criadora!

Norman Parker
"A vida criadora! Ascensão. A superação do EGO. Subir ao azul como um foguete, agarrando-se a escadas voadoras, elevando-se, alçando-se, erguendo o mundo pelo escalpo, despertando os anjos em suas tocas etéreas, mergulhando em profundezas estelares, cavalgado as caudas dos cometas. Nietzsche escreveu em êxtase sobre as coisas; em seguida desmaiou para dentro do espelho e morreu em raiz e flor. " Escadas e contraditórias escadas", escreveu ele, e subitamente não havia mais chão; a mente, como um diamante fragmentado, era pulverizada pelas marteladas da verdade."



(Henry Miller)

terça-feira, 11 de maio de 2010

Viver

Ninguém avança pela vida em linha reta. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutávelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar.

(Henry Miller)
[Imagem: Van Gogh]

sábado, 17 de abril de 2010

Inumanidade

“Hoje sinto orgulho que dizer que sou inumano, que não pertenço a homens e governos, que nada tenho a ver com a maquinaria rangente da humanidade – eu pertenço à terra! (…)“Lado a lado com a espécie humana corre outra raça de seres, os inumanos, a raça de artistas que, incitados por desconhecidos impulsos, tomam a massa sem vida da humanidade e, pela febre e pelo fermento com que a impregnam, transformam a massa úmida em pão, e pão em vinho, e o vinho em canção. Do composto morto e da escória inerte criam uma canção que contagia. Vejo esta outra raça de indivíduos esquadrinhando o universo, virando tudo de cabeça pra baixo, e os pés sempre se movendo em sangue e lágrima, as mãos sempre vazias, sempre se estendendo na tentativa de agarrar o além, o deus inatingível: matando tudo ao seu alcance a fim de acalmar o monstro que lhe corrói as entranhas. (…) E tudo quanto fique aquém desse aterrorizador espetáculo, tudo quanto seja menos sobressaltante, menos terrificante, menos louco, menos delirante, menos contagiante, não é arte. Esse resto é falsificação. Esse resto é humano. Pertence a vida e à ausência de vida.“(…) Se sou inumano é porque meu mundo transbordou de suas fronteiras humanas, porque ser humano parece uma coisa pobre, triste, miseravel, limitada pelos sentidos, restringidas pelas moralidades e pelos códigos, definida pelos lugares-comuns e ismos.“(…) Tenhamos um mundo de homens e mulheres com dínamos entre as pernas, um mundo de fúria natural, de paixão, ação, drama, sonhos, loucuras, um mundo que produza êxtase e não peidos secos.“(…) Que os mortos comam os mortos. Dancemos nós os vivos, à beira da cratera, uma última e agonizante dança. Mas que seja uma dança!” - 

(Henry Miller em Trópico de Câncer)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Da mesma fonte

Diariamente sufocamos nossos melhores impulsos. É por isso que nos dá uma dor no coração sempre que lemos aquelas linhas escritas pela mão de um mestre e as reconhecemos como nossas, como os tenros brotos que esmagamos porque nos faltava fé para acreditar em nossas próprias forças, nosso próprio critério de verdade e beleza. Todo homem, quando se aquieta, quando se torna desesperadamente honesto consigo mesmo, é capaz de pronunciar verdades profundas. Derivamos todos da mesma fonte. Não há mistério sobre a origem das coisas. Somos todos parte da criação, todos reais, todos poetas, todos músicos; só nos falta desabrochar, apenas descobrir o que já existe em nós.

(HENRY MILLER)
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