"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)
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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Homem, presta atenção




Homem, presta atenção
O que diz a profunda meia-noite?
Eu dormia, dormia
e de um profundo sonhar eu despertei.
O mundo é profundo
Mais profundo do que o pensa o dia
Profunda é sua dor
O prazer – mais profundo ainda que a dor
A dor diz: Passa!
Mas todo prazer deseja eternidade
Uma profunda, profunda Eternidade.

Friedrich Nietzsche,
Assim Falou Zaratustra

domingo, 19 de abril de 2015

Eu sou vários. Há multidões em mim.

"Eu sou vários.  Há multidões em mim.  Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo. Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa, nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos um dos tantos que sou, e correrei os riscos de estarmos juntos no mesmo plano. Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e que quando se solta me envergonha. Não sou santo, nem exemplo, infelizmente. Entre tantos, um dia me descubro, um dia serei eu mesmo, definitivamente. Como já foi dito: ouse conquistar a ti mesmo."



Nietzsche, Gaia Ciência
 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Adversidade

Examinai a vida dos homens e dos povos melhores e mais fecundos, e perguntai se uma árvore que deve elevar-se altivamente nos ares pode dispensar o mau tempo e as tempestades; se a hostilidade do exterior, as resistências exteriores, todas as espécies de ódio de inveja, de teimosia, de desconfiança, de dureza, de avidez e de violência não fazem parte das circunstâncias favoráveis sem as quais nada, nem sequer a virtude, poderia crescer grandemente? O veneno que mata as naturezas fracas é um fortificante para as fortes; ... e por isso não lhe chamam veneno. 

Friedrich Nietzsche, 
in 'A Gaia Ciência'

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A Tempestade

A Tempestade - Thomas Chambers
O sofrimento não tem menos sabedoria do que o prazer: tal como este, faz parte em elevado grau das forças que conservam a espécie. Porque se fosse de outra maneira há muito que esta teria desaparecido; o facto de ela fazer mal não é um argumento contra ela, é muito simplesmente a sua essência. Ouço nela a ordem do capitão: «Amainem as velas». O intrépido navegador homem deve treinar-se a dispor as suas de mil maneiras; de outro modo, não tardaria a desaparecer, o oceano havia de o engolir depressa. É preciso que saibamos viver também reduzindo a nossa energia; logo que o sofrimento dá o seu sinal, é chegado o momento; prepara-se um grande perigo, uma tempestade, e faremos bem em oferecer a menor «superfície» possível. 

Há homens, contudo, que, quando se aproxima o grande sofrimento, ouvem a ordem contrária e nunca têm ar mais altivo, mais belicoso, mais feliz do que quando a borrasca chega, que digo eu! E a própria tempestade que lhes dá os seus mais altos momentos! São os homens heróicos, os grandes «pescadores da dor», esses raros, esses excepcionais de que é necessário fazer a mesma apologia que se faz para a própria dor! Não lha podemos recusar! São conservadores da espécie, estimulantes de primeira qualidade, quando mais não seja porque resistem ao bem-estar e não escondem o seu desprezo por essa espécie de felicidade. 

Friedrich Nietzsche,
 in "A Gaia Ciência"

domingo, 13 de abril de 2014

Mulheres

Edward Hopper - Reclining nude, 1924
"Há mulheres que, por mais que as pesquisemos, não têm interior, são puras máscaras. É digno de pena o homem que se envolve com estes seres quase espectrais, inevitavelmente insatisfatórios, mas precisamente elas são capazes de despertar da maneira mais intensa o desejo do homem: ele procura a sua alma - e continua procurando para sempre." 

Friedrich Nietzsche - Humano, Demasiado Humano,

sábado, 21 de dezembro de 2013

Tempos de Grande Perigo

“São os tempos de grande perigo em que aparecem os filósofos. Então, quando a roda rola com sempre mais rapidez, eles e a arte tomam o lugar dos mitos em extinção. Mas projetam-se muito à frente, pois só muito devagar a atenção dos contemporâneos para eles se volta”.

Friedrich Nietzsche, 
in Vontade de Poder


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Da Altiva Sabedoria


O ar leve e puro, o perigo próximo e o espírito cheio de uma alegre malícia, tudo isto se harmoniza bem. Eu quero ver duendes em torno de mim porque sou valoroso. O valor que afugenta os fantasmas cria os seus próprios duendes: o valor quer rir.
Eu já não sinto um uníssono convosco; essa nuvem que eu vejo abaixo de mim, esse negrume e carregamento de que me rio, é exatamente a vossa nuvem tempestuosa.
Vós olhais para o alto quando aspirais a vos elevar. Eu, como estou alto, olha para baixo.
Qual de vós pode estar alto e rir ao mesmo tempo?
O que escala elevados montes ri-se de todas as tragédias, as do teatro e as da vida.
Valorosos, despreocupados, zombeteiros, violentos, eis como nos quer a sabedoria. É mulher e só lutadores pode amar.
Vós me dizeis: ‘A vida é uma carga pesada’. Mas para que é esse vosso orgulho pela manhã e essa vossa submissão à tarde?
A vida é uma carga pesada; mas não vos mostreis tão delicados! Todos nós somos bons jumentos e mulas de carga.
Que parecença temos com o cálice de rosa que treme porque o oprime uma gota de orvalho?
É verdade: amamos a vida não porque estejamos acostumados a viver, mas porque estamos acostumados a amar.
Há sempre o seu quê de loucura no amor; mas também há sempre o seu quê de razão na loucura. E eu, que estou bem com a vida, creio que para saber de felicidade não há como as borboletas e as bolhas de sabão, e o que se lhes assemelhe entre os homens.
Ver revolutear essas almas aladas e loucas, encantadoras e buliçosas, é o que arranca a Zaratustra lágrimas e canções.
Eu só poderia crer num Deus que soubesse dançar.
E quando vi o meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo e solene: era o espírito do pesadume. Por ele caem todas as coisas.
Não é com raiva, mas com riso que se mata. Adiante! Matemos o espírito do pesadume!
Eu aprendi a andar; por conseguinte corro. Eu aprendi a vor; portanto não quero que me empurrem para me mudar de lugar.
Agora sou leve, agora vôo; agora vejo a mim mesmo por baixo de mim, agora dança em mim um Deus.”
Assim falou Zaratustra.

Friedrich Nietzsche,
Assim Falou Zaratustra

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Profetas do Comércio

Vemos agora surgir, de várias maneiras, a cultura de uma sociedade em que o comércio é a alma, assim como a peleja individual para os antigos gregos, e a guerra, a vitória e o direito para os romanos. O mercador sabe estimar o valor de tudo sem produzi-lo, e estimar o valor  segundo a necessidade dos consumidores, não segunda suas próprias necessidades; 'quem e quantos consomem isto?' é sua grande pergunta. Esse gênero de estimativa ele emprega instintiva e incessantemente para tudo, também para as realizações da arte e da ciência, dos pensadores, doutores, artistas, estadistas, de povos e partidos, de épocas inteiras: em relação a tudo o que é produzido ele pergunta pela oferta e a demanda, a fim de estabelecer para si o valor de uma coisa. Isto alçado em caráter de toda uma cultura, pensando com o máximo de amplidão e sutileza, e impondo-se toda vontade e capacidade: é disso que vocês, homens do próximo século [XX], estarão orgulhosos: se os profetas da classe mercadora em colocá-los na sua posse! Mas eu não tenho fé nestes profetas.

- Friedrich Nietzsche,
Aurora

domingo, 10 de junho de 2012

Para Quem a Verdade?

Até o presente, os erros foram as forças mais ricas em consolação: agora se espera os mesmos serviços das verdades reconhecidas, mas elas se fazem esperar um pouco demais. 

Como, as verdades não seriam talvez mais apropriadas para consolar? - Esse seria, pois, um argumento contra as verdades? Que têm elas de comum com o estado doentio dos homens sofredores e degenerados, para que se possa exigir delas que lhes sejam úteis? 

Não se prova nada contra a verdade de uma planta ao constatar que ela não contribui de alguma maneira para a cura dos homens doentes. Mas outrora havia a convicção de que o homem era o objetivo da natureza, a poto de admitir sem cerimônia que o conhecimento não podia revelar nada que não fosse salutar e útil ao homem e, mais ainda, que não poderia a nenhum preço haver outra coisa no mundo. 

- Talvez de tudo isso se poderia concluir que a verdade, como entidade e conjunto, só existe para as almas contemporaneamente poderosas e desinteressadas, alegres e pacíficas (como era a de Aristóteles), e que essas almas seriam as únicas a procurá-la realmente: pois os outros procuram remédios para seu uso, qualquer seja, aliás, o orgulho que tem para vangloriar-se  de seu intelecto e da liberdade desse intelecto - eles não procuram a verdade. Aí está porque a ciência proporciona tão pouca alegria verdadeira a esses homens que a recriminam por sua frieza, por sua aridez e por sua desumanidade: esse é o juízo dos doentes sobre a disposição daqueles que são saudáveis. 

- Os deuses da Grécia também não tinham grande tino para consolar; quando o povo grego acabou por cair doente, ele também foi uma das razões por que semelhantes deuses pereceram.

Friedrich Nietzsche,
Aurora

sábado, 12 de maio de 2012

A propriedade pode se conciliar com a justiça?

Mark Chagal
O refrão básico da utopia de Platão, que ainda hoje continua a ser cantado pelos socialistas, repousa num conhecimento falho do ser humano: nele falta o exame histórico dos sentimentos morais, a penetração na origem dos atributos bons e úteis da alma humana. Como toda antiguidade, ele acreditava no bem e no mal como no preto e no branco: ou seja, numa radical diferença entre homens bons e maus, atributos bons e ruins. - Para que, de ora em diante, a propriedade inspire mais confiança e se torne mais moral, mantenham-se abertas as vias que, pelo trabalho, levam à pequena fortuna, mas impeça-se o enriquecimento repentino e sem esforço; sejam tirados das mãos de particulares e sociedades privadas todos os ramos do transporte e do comércio que favorecem o acúmulo de grandes fortunas, sobretudo o comércio de dinheiro - e sejam vistos como seres perigosos para a comunidade tanto aquele que possui demais como aquele que nada possui.

- Friedrich Nietzsche
O Andarilho e Sua Sombra, 1879

sábado, 7 de janeiro de 2012

Excentricos

Escher
"O que há de revoltante num estilo de vida individual. As pessoas se irritam com aqueles que adotam padrões de vida muito individuais; elas se sentem humilhadas, reduzidas a seres ordinários, com o tratamento extraordinário que eles dispensam a si mesmos."

- Friedrich Nietzsche
Humano, Demasiado Humano

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Eterna Criança


Com a força do seu olhar intelectual e da sua penetração espiritual cresce a distância e, de certo modo, o espaço que circunda o homem: o seu mundo torna-se mais profundo, avistam-se continuamente estrelas novas, imagens novas e novos enigmas. Talvez tudo aquilo em que o olhar do espírito exercitou a sua sagacidade e profundeza tenha sido apenas um pretexto para este exercício, um jogo e uma criancice e infantilidade. E talvez um dia os conceitos mais solenes, os que provocaram maiores lutas e maiores sofrimentos, os conceitos de «Deus» e do «pecado», não signifiquem, para nós, mais do que um brinquedo e um desporto de criança significam para um velho, - e talvez o «velho homem» tenha, então, necessidade de um outro brinquedo ainda e de um outro desgosto, - por continuar a ser muito criança, eterna criança!

- Friedrich Nietzsche,
Para Além de Bem e Mal

domingo, 27 de novembro de 2011

Amor Fati

Leonid Afremov

"... vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a minha vida! É aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: seja esse de agora em diante o meu amor. Não quero fazer guerra ao feio. Nâo quero acusar nem mesmo os acusadores. Desviarei o meu olhar, será essa, de ora em diante, a minha única negação! E, numa palavra final, não quero, a partir de hoje, ser outra coisa senão um afirmador."

- Friedrich Nietzsche

domingo, 23 de outubro de 2011

Da vitória sobre si mesmo


É preciso que eu seja luta e sucesso e fim e contradição dos fins. Ai! Aquele que advinha minha vontade advinha também os caminhos tortuosos que precisa seguir. Seja qual for a coisa que eu crie e o amor que lhe tenha em breve devo ser seu adversário e o adversário do meu amor: assim o quer a minha vontade.

E tu também, investigador, não és mais do que a senda e a pista da minha vontade: a minha vontade de potencia segue também as pegadas da tua vontade de verdade.

Certamente não encontrou verdade aquele que falava da vontade de existir; não há tal vontade. Porque o que não existe não pode querer; mas como poderia o que existe ainda desejar a existência! Só onde há vida há vontade; não vontade de vida, mas como eu ensino, vontade de potência. Há muitas coisas que o vivente aprecia mais do que a vida; mas nas próprias apreciações fala a vontade de potência. 



 (Friedrich Nietzsche in 'Assim Falou Zaratustra')

"A vontade é impotente perante o que está por trás dela. Não pode destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade."


(Friedrich Nietzsche)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sábios?

Já não sou um sábio para as ovelhas : assim o quer a minha sorte. Bendita seja! Porque é esta a verdade: saí da casa dos sábios atirando com a porta. Demasiado tempo esteve a minha alma faminta sentada à sua mesa; eu não estou assim como eles, adestrado para o conhecimento como para descascar nozes. 

Amo a liberdade e o ar na terra fresca; e até me agrada mais dormir em peles de bois do que nas suas honrarias e dignidades. Sou ardente demais e estou demasiado consumido pelos próprios pensamentos; falta-me com frequência a respiração; então necessito procurar ar livre e sair de todos os compartimentos empoeirados. 

Eles, porém, estão sentados muito frescos à sombra: em parte alguma querem passar de espectadores, e guardam-se bem de se sentar onde o sol caldeia os degraus. Com os que se postam no meio da rua a olhar de boca aberta quem passa, assim eles aguardam de boca aberta os pensamentos dos outros. (...) Se dão mostras de sábios, horrorizam-me com suas pequenas sentenças e verdades: a sua sabedoria cheira amiúde como se saísse de um pântano, e indubitavelmente já nele ouvi cantar rãs. 

(Friedrich Nietzsche "Assim Falou Zaratustra)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Consciência Intelectual


Vladimir Kush
A consciência intelectual - Acabo de refazer a experiência e de rebelar contra ela, não posso acreditar, ainda que me seja evidente: falta consciência intelectual a grande maioria das pessoas; pareceu-me, frequentemente, que quando alguém a possuía, nas mais populosas cidades, estava tão só como no deserto. Todos olham para nós como se fôssemos estrangeiros e continuam a fazer uso da sua balança, dizendo que isto é bom, que aquilo é mau; ninguém enrubesce de vergonha quando deixa perceber que os seus pesos não são justos; ninguém se indigna contra vós: talvez riam das vossas dúvidas... os homens mais dotados e as mulheres mais nobres também fazem parte desse grande número. Que me importam bondade, finura e gênio, se o homem que possui essas virtudes tolera no seu coração a mornice da fé, do juízo, se a exigência da certeza não é o seu mais profundo desejo, a sua mais íntima necessidade!

(Friedrich Nietzsche, in "Gaia Ciência")

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A lenta flecha da beleza

Leonid Afremov
O tipo de beleza mais nobre é aquele que não arrebata de repente, que não faz ataques impetuosos e inebriantes (esse provoca com facilidade o tédio), mas que se insinua lentamente, que se carrega consigo quase sem saber e que um dia, em sonho, se redescobre, mas que, por fim, apos ter ficado modestamente em nosso coração, toma posse completa de nós, enche nossos olhos de lágrimas e nosso coração de desejo. 

(Friedrich Nietzsche in 'Humano, demasiado humano)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O centro voante do mundo


Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela bóia no ar com esse páthos e sente em si o centro voante deste mundo. Não há nada tão desprezível e mesquinho na natureza que, com um pequeno sopro daquela força do conhecimento, não transbordasse logo um odre; e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo telescopicamente em mira sobre seu agir e pensar. É notável que o intelecto seja capaz isso, justamente ele, que foi concedido apenas como meio auxiliar aos mais infelizes, delicados e perecíveis dos seres, para firmá-los um minuto na existência (...)

(Friedrich Nietzsche 'Sobre a verdade e a mentira em sentido extra-moral')

sábado, 23 de julho de 2011

Multi-humanidade

Edvard Munch

Nenhum povo poderia viver sem avaliar; mas, para se conservar, não deve avaliar como o seu vizinho. Muitas coisas que um povo chamava boas eram para outros vergonhosas e desprezíveis; foi o que vi. Muitas coisas, aqui qualificadas de más, em outro lugar as enfeitavam com o manto de púrpura das honrarias. Nunca um vizinho compreendeu o outro; sempre a sua alma se assombrou da loucura e da maldade do vizinho. Sobre cada povo está suspensa uma tábua de bens. E vede: é a tabua dos triunfos dos seus esforços; é a voz da sua vontade de potência. (...)
A verdade é que os homens deram a si mesmos todo o seu bem e todo o seu mal. A verdade é que não o tomaram, que o não encontraram, que não lhes caiu como uma voz do céu. O homem é que pôs valores nas coisas com a intenção de conservar; foi ele que deu um sentido às coisas, um sentido humano. Por isso se chama 'homem', isto é, o que avalia. (...)

Muitos países e muitos povos viu Zaratustra. Não encontrou poder maior na terra que a obra dos amantes; 'bem' e 'mal' é o seu nome.

Até o momento tem havido mil objetos, porque tem havido mil povos. Só falta a cadeia das mil cervizes: falta o único objeto. A humanidade não tem objeto. Mas dizei-me, irmãos: se falta objeto à humanidade, não é porque ela mesma ainda não existe?

(Friedrich Nietzsche in 'Assim Falou Zaratustra')

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Moral segundo Nietzsche

Leonid Afremov
... muitas ações são qualificadas como más e são apenas estúpidas, porque o grau de inteligência que foi decisivo para elas era muito baixo. Melhor ainda, num certo sentido, mesmo hoje, todas as ações são estúpidas, pois o grau mais elevado de inteligência humana, que pode ser alcançado hoje em dia, seria ainda seguramente ultrapassado: e então, ao olhar para trás, todo o nosso comportamento e todos os nossos juízos parecerão tão limitados e considerados como o comportamento e o juízo de tribos selvagens e atrasadas.

Reconhecer tudo isso pode causar uma profunda dor, mas não sem uma consolação: essas são as dores de parto. A borboleta quer romper seu casulo, ela o puxa e o rasga: então a luz desconhecida a cega e inebria, o império da liberdade. É em homens capazes dessa tristeza - quão poucos serão! - que será feita a primeira experiência para ver se a humanidade, de moral como é, se pode transformar em sábia. O sol de um novo evangelho lança seu primeiro raio sobre os mais altos cumes na alma desses indivíduos: lá, as nuvens se acumulam mais espessas que em qualquer outro lugar e, lado a lado, reinam o fulgor mais claro e o crepúsculo mais sombrio. Tudo é necessidade - é o que diz o novo conhecimento: e esse conhecimento é ele próprio necessidade. Tudo é inocência: e o conhecimento é o caminho para chegar a compreensão dessa inocência.

(Friedrich Nietzsche in Humano, Demasiado Humano)
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