"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)
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domingo, 20 de maio de 2012

Somos o Tempo

Somos o tempo. Somos a famosa parábola de Heráclito o Obscuro. Somos a água, não o diamante duro, a que se perde, não a que repousa. Somos o rio e somos aquele grego que se olha no rio. Seu semblante muda na água do espelho mutante, no cristal que muda como o fogo. Somos o vão rio prefixado, rumo a seu mar. Pela sombra cercado. Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa. A memória não cunha sua moeda. E no entanto há algo que se queda e no entanto há algo que se queixa.

- Jorge Luis Borges

domingo, 3 de abril de 2011

Deixo o nada a ninguém!





















Não restará na noite uma estrela.

Não restará a noite.

Morrerei, e comigo a soma

do intolerável universo.

Apagarei as pirâmides, as medalhas,

os continentes e os rostos.

Apagarei a acumulação do passado.

Transformarei em pó a história, em pó o pó.

Estou mirando o último poente.

Ouço o último pássaro.

Deixo o nada a ninguém.




(Jorge Luís Borges)

domingo, 20 de março de 2011

Ao Espelho

Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?

És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.

O fato de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisa de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas

Que somos e que abarcam nossa sorte.
Quando eu estiver morto, copiarás outro
E depois outro, e outro, e outro, e outro…



(Jorge Luís Borges)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O Livro


Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.  Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza. (...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria. 

(Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Livro')

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Biblioteca do Universo

"O Universo é uma Biblioteca e o homem, o bibliotecário imperfeito, pode ser a obra do acaso ou de demiurgos malévolos (...) Não me parece inverossímil que em alguma prateleira de Universo haja o livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem - um só -, ainda que seja há 1000 anos! - o tenha examinado e lido. Se a honra, a sabedoria e a felicidade não são para mim, que sejam para os outros. Que o céu exista, embora o meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que num instante, num ser, Tua enorme Biblioteca se justifique. (...) Ninguém pode articular uma sílaba que não esteja cheia de ternuras e temores; que não seja em alguma dessas linguagens o nome poderoso de um deus. Falar é incorrer em tautologias. A certeza de que tudo está escrito nos anula ou faz de nós fantasmas."

(Jorge Luís Borges)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Escrituras de Luz

Escrituras de luz investem na sombra, mais prodigiosas que meteoros. A alta cidade incognoscível avança sobre o campo. Certo de minha vida e de minha morte, fito os ambiciosos e tento entendê-los.

Seu dia é ávido como o laço no ar. Sua noite é trégua da ira no ferro, prestes a atacar.

Falam de humanidade. Minha humanidade está em sentir que somos vozes de uma mesma penúria. Falam de pátria. Minha pátria é um lamento de guitarra, alguns retratos e uma velha espada, a desvelada prece dos salgueiros nos fins de tarde.

O tempo está vivendo-me. Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tropel de sua exaltada cobiça. Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores da manhã.

Meu nome é alguém e qualquer um. Passo devagar, como quem vem de tão longe que não espera chegar.


(Jorge Luis Borges)
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