"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)

sábado, 9 de abril de 2011

Não, a vida não me desapontou!


Não, a vida não me desapontou! Pelo contrário, todos os anos a acho melhor, mais desejável, mais misteriosa... desde o dia em que vejo a mim a grande libertadora, a ideia de que a vida podia ser experiência para aqueles que procuram saber, e não dever, fatalidade, duplicidade!... Quanto ao próprio conhecimento, seja ele para outros aquilo que quiser, um leito de repouso, ou o caminho para um leito de repouso, ou distracção ou vagabundagem, para mim é um mundo de perigos, é um universo de vitórias onde os sentimentos heróicos têm a sua sala de baile. «A vida é um meio de conhecimento»; quando se tem este princípio no coração, pode viver-se não somente corajoso mas feliz, pode-se rir alegremente! E quem, de resto, se ouvirá, portanto, a bem rir e a bem viver se não for primeiramente capaz de vencer e de guerrear?

(Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência")

domingo, 3 de abril de 2011

Deixo o nada a ninguém!





















Não restará na noite uma estrela.

Não restará a noite.

Morrerei, e comigo a soma

do intolerável universo.

Apagarei as pirâmides, as medalhas,

os continentes e os rostos.

Apagarei a acumulação do passado.

Transformarei em pó a história, em pó o pó.

Estou mirando o último poente.

Ouço o último pássaro.

Deixo o nada a ninguém.




(Jorge Luís Borges)

sábado, 26 de março de 2011

Minha Moral: não fazer bem nem mal

Tenho uma moral muito simples - não fazer a ninguém nem mal nem bem. Não fazer a ninguém mal, porque não só reconheço nos outros o mesmo direito que julgo que me cabe, de que não me incomodem, mas acho que bastam os males naturais para mal que tenha de haver no mundo. Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem. Não fazer bem porque não se o que é o bem, nem se o faço quando julgo que o faço. Sei eu que males produzo se dou esmola? Sei que males produzo se educo ou instruo? Na dúvida, abstenho-me. E acho, ainda, que auxiliar ou esclarecer é, em certo modo, fazer o mal de intervir na vida alheia. A bondade é um capricho temperamental: não temos o direito de fazer os outros vítimas de nossos caprichos, ainda que de humanidade ou ternura. Os benefícios são coisas que se infligem; por isso os abomino friamente. 

Se não faço o bem, por moral, também não exijo que mo façam. Se adoeço, o que me pesa é que obriga alguém a tratar-me, coisa que repugnaria de fazer a outrem. Nunca visistei um amigo. Sempre que, tendo eu adoecido, me visitaram, sofri cada visita como um incomodo, um insulto, uma violação injustificável da minha intimidade decisiva. Não gosto que me dêem coisas; parecem com isso obrigar-me a que as dê também - aos mesmos ou a outros, seja a quem for.

... Tenho para com tudo que existe uma ternura visual, um carinho da inteligência - nada no coração. Não tenho fé em nada, esperança de nada, caridade para nada. 

É esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu: Transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isto, não sei se sou feliz ou infeliz; nem me importa. 

(Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Loucura dos Modernos

... a existência humana é às vezes, para não dizer sempre, trágica, no sentido de o infortúnio acontecer sem que possamos lhe dar um sentido. É um erro querer a todo custo esquecer disso. Hoje em dia, assim que o mal injustamente se abate sobre nós, de imediato cedemos à mania moderna que consiste em procurar "os responsáveis". Um rio transborda e afoga pessoas que acampavam? É claro, a culpa é do prefeito, do governador, do ministro, que são no mínimo incompetentes, para não dizer criminosos! Um avião? Vamos rápido abrir um processo para identificar os culpados e levá-los ao pelourinho. Seja um telhado de escola que afunda, uma tempestade que arranca árvores, um túnel que se incendeia, queremos a todo custo uma explicação humana, um erro moral para urgentemente estigmatizá-la. Vamos falar com franqueza: nessa atitude é que melhor se enxerga a loucura dos modernos. 

... o humanismo de que eu gosto e defendo em outras situações se tornou tão onipresente e estamos, nós seres humanos, tão convencidos de sermos os senhores absolutos do mundo, os donos de todos os poderes, que insensivelmente, sem sequer pensar, achamos que temos controle sobre tudo, inclusive as forças naturais, as catástrofes e os acidentes! Isso, no entanto, é puro delírio, no sentido próprio do termo: denegação realidade. 

(Luc Ferry, A Sabedoria dos Mitos Gregos)

domingo, 20 de março de 2011

Ao Espelho

Por que persistes, incessante espelho?
Por que repetes, misterioso irmão,
O menor movimento de minha mão?
Por que na sombra o súbito reflexo?

És o outro eu sobre o qual fala o grego
E desde sempre espreitas. Na brunidura
Da água incerta ou do cristal que dura
Me buscas e é inútil estar cego.

O fato de não te ver e saber-te
Te agrega horror, coisa de magia que ousas
Multiplicar a cifra dessas coisas

Que somos e que abarcam nossa sorte.
Quando eu estiver morto, copiarás outro
E depois outro, e outro, e outro, e outro…



(Jorge Luís Borges)

quarta-feira, 16 de março de 2011

Afortunados

Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos…

(Richard Dawkins,  Deus, um delírio)

domingo, 13 de março de 2011

A solidão desola-me; a companhia oprime-me...

Edvard Munch
Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo do que aquele dito de Leonardo da Vinci de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.

A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distracção especial, que toda a minha atenção analítica  não consegue definir.

(Fernando Pessoa in 'Livro do Desassossego)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Autoridades Anônimas

Erich Fromm observou que hoje em dia as pessoas deixaram de viver sob a autoridade da igreja ou das leis morais, mas submetem-se a "autoridades anônimas", como a opinião pública. A autoridade é o próprio público, mas esse público é uma simples reunião de indivíduos, cada qual com seu radar ligado para descobrir o que os outros dele esperam. 

(Rollo May, in 'O homem à procura de si mesmo)

terça-feira, 8 de março de 2011

Honrar a Arte


Kant jugou honrar a arte, quando, entre os predicados da beleza, fez ressaltar os que constituem a honra do conhecimento: a impersonalidade e a universalidade... Kant , como todos os filósofos, em vez de estudar o problema estético baseando-se na experiência do artista, não meditou acerca da arte e da beleza sendo como "espectador" e insensivelmente introduziu o elemento "espectador" no conceito da arte e da "beleza". Se ao menos fossem bons espectadores estes filósofos!... Haveria então neles um fato pessoal, uma experiência, um conjunto de emoções, de desejos, de surpresas e de êxstases! Mas parece que foi exatamente o contrário. De modo que nos dão umas definições secas, que falta por completo a experiência pessoal mais sutil na forma de grande ver com erro fundamental. 


(Friedrich Nietzsche, in Genealogia da Moral)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Desapego

Monet
Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora.Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará. Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira.

(Fernando Pessoa)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O homem à procura de si mesmo

Edvard Munch 
Uma das poucas alegrias da vida numa época de ansiedade é o fato de sermos forçados a tomar consciência de nós mesmos. Quando a sociedade contemporânea, nesta fase de reversão de padrões e valores, não consegue dar-nos uma nitida visão "do que somos e do que devemos ser", nas palavras de Matthew Arnold, vemo-nos lançados à busca de nós mesmos. A dolorosa insegurança que nos rodeia torna-se um incentivo a indagar:  será que nos passou despercebido algum importante manancial de força e orientação?

Constato que, de modo geral, este incentivo não é considerado uma benção. Prefere-se indagar: como é possível alcançar a integração interior numa sociedade tão desintegrada? Ou então: como empreender a longa evolução para a auto-realização numa época em que quase nada é certo, nem no presente, nem no futuro?

(Rollo May, in O homem à procura de si mesmo)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Nossa ignorância comum


Quanto mais aprendemos sobre o mundo, quanto mais profundo o nosso conhecimento, mais específico, consistente e articulado será o nosso conhecimento do que ignoramos - o conhecimento da nossa ignorância. Essa, com efeito, é a principal fonte da nossa ignorância: o facto de que o nosso conhecimento só pode ser finito, mas a nossa ignorância deve necessariamente ser infinita. (...) Vale a pena lembrar que, embora haja uma vasta diferença entre nós no que diz respeito aos fragmentos que conhecemos, somos todos iguais no infinito da nossa ignorância. 

(Karl Popper, in 'As Origens do Conhecimento e da Ignorância')


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Os homens podem ser racionais?

Salvador Dalí

O homem é racional na proporção em que a sua inteligência orienta e controla os seus desejos.
Acredito que o controle dos nossos actos pela inteligência é, afinal, o que mais importa e a única coisa capaz de preservar a possibilidade de vida social, enquanto a ciência expande os meios de que dispomos para nos ferir e destruir. O ensino, a imprensa, a política, a religião - numa palavra, todas as grandes forças do mundo - estão actualmente do lado da irracionalidade; estão nas mãos dos homens que lisonjeiam Populus Rex com o fito de desencaminhá-lo. O remédio não está em nada heróico nem cataclísmico, mas nos esforços dos indivíduos no sentido de uma opinião mais sadia e equilibrada das nossas relações com o próximo e a sociedade. É à inteligência, cada vez mais divulgada, que devemos recorrer para a solução dos males de que sofre o nosso mundo. 


(Bertrand Russell, in 'Ensaios Cépticos: Os Homens Podem Ser Racionais?')

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Da árvore da Montanha

Zaratustra agarrou a árvore que o mancebo se encontrava e disse:

"Se eu quisesse sacudir esta árvore com as minhas mãos não poderia; mas o vento que não vemos açoita-a e dobra-a como lhe apraz. Também a nós mãos invisíveis nos açoitam e dobram rudemente".

"Por que te assustas? O que sucede a árvore também sucede ao homem. Quanto mais se quer erguer para o alto e para a luz, mais vigorosamente enterra as suas raízes para baixo, para o tenebroso e profundo: para o mal."

"Dizias a verdade, Zaratustra - disse o mancebo. Já não tenho confiança em mim desde que quero subir às alturas, e já nada tem confiança em mim. A que se deve isso? Eu me transformo muito depressa: o meu hoje contradiz o meu ontem. Com freqüência salto degraus quando subo, coisa que os degraus não me perdoam. Quando chego em cima sempre me encontro só. Ninguém me fala; o frio da solidão me faz tiritar. Que é que quero, então, nas alturas?"

Zaratustra olhou atentamente para a árvore a cujo pé se encontrava e falou assim:

"Esta árvora está solitária na montanha. Cresce muito sobranceira aos homens e aos animais. E se quisesse falar ninguém haveria que a pudesse compreender, de tanto que cresceu. Agora espera, e continua esperando. Que esperará então? Habita perto demais das montanhas: acaso esperarás um raio?" ...

"Ah, eu conheci nobres que perderam a sua mais elvada esperança. E depois, caluniaram todas as elevadas esperanças. Desde então tem vivido abertamente com minguadas aspirações, e dificilmente traçam metas para mais de um dia.

'O espírito é também voluptouosidade' - diziam. E então se quebraram as asas do seu espírito; arrasta-se agora de um lado para o outro, maculando tudo quanto consome.

Noutro tempo pensavam fazer-se heróis; agora são folgazões. O herói é para eles aflição e espanto.

Mas por meu amor e minha esperança te aconselho: não expulses para longe de ti o herói que há na tua alma! Santifica a tua mais elevada esperança!"

Assim Falou Zaratustra


(Friedrich Nietzsche, in Assim Falou Zaratustra)


E dentre nós, quais são árvores da montanha e quais são plantas rasteiras e ervas daninhas? 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Literatura Libertadora


A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade. Quer dizer que o seu ponto de partida é uma recusa aos constrangimentos. Quer dizer, ainda, que os constrangimentos estão na sua génese ou no desencadear da sua explosão, como tem sido proclamado por tantos criadores. 
Homem livre, pois, o escritor - ou que visceralmente deseja sê-lo. Tão livre, ou tão necessitado de o ser, que nem sequer pode estar de acordo com certas situações para que ardorosamente contribuiu: seja numa sociedade burguesa, seja numa sociedade proletária, ele sempre encontrará razões para a sua insubmissão e para o seu inconformismo, mesmo se, muitas vezes, se trate de uma contestação inconsciente. 

(Fernando Namora, in 'Jornal sem Data')
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