“A única forma de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua” (Gustave Flaubert)
domingo, 12 de junho de 2011
Se eu te pudesse dizer
Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei.
Seu eu te pudesse dizer
o quanto te amo
Te daria grande prazer
e viverias nesse encanto.
Mas amar é meu segredo
O que nunca te direi
Pois sinto muito medo
E sei que te perderei.
Se soubesse compreender
O tamanho desse amor
Tu terias que entender
Que so quero seu calor.
Assim sigo meu caminhar
Te amando sem lei
E sempre a me perguntar
Aquilo que nem eu sei.
(Fernando Pessoa)
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Fernando Pessoa,
Poema e Poesia
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Poesia é coisa séria!
"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor de cotovelo, falta de dinheiro, ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos."
(Carlos Drummond de Andrade)
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Carlos Drummond de Andrade,
Poema e Poesia
quarta-feira, 8 de junho de 2011
É urgente o amor
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos,
as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros
e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
(Eugenio de Andrade)
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos,
as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros
e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
(Eugenio de Andrade)
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Eugenio Andrade,
Poema e Poesia
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Dividir minha tristeza?
Eu divido minhas alegrias, meus livros e discos, minha cama, meu conhecimento e até meu uísque... mas não admito que me chamem de egoísta só porque não divido minhas tristezas, porque elas são somente minhas e por serem minhas não admito que alguém as compreenda. Sou humano e deixar se compreender é ser menos que humano, porque humano não se compreende. Prefiro ser ignorado humanamente, como se ignora formigas que trafegam sem querer para longe do formigueiro, como se ignora a mecânica dos automóveis e a aerodinâmica dos aviões, a falsidade dos filmes de guerra, a dor que o poeta deveres sente, a pedra no meio do caminho, a palmeira onde o sabiá cantava e a inexistência desconsolável de qualquer Pasárgada, sem a vida, no entanto, deixar de ser menos vida.
- Alan Teixeira
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Alan Teixeira
sábado, 4 de junho de 2011
O Estrangeiro
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| Ben Gossens |
Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de
si mesmo. Durante as falas do promotor e do meu advogado, posso dizer que se
falou muito de mim, e talvez até mais de mim do que do meu crime. (...) Apesar
das minhas preocupações, às vezes eu ficava tentando intervir e meu advogado me
dizia, então, "cale-se, é melhor para seu caso". De algum modo,
pareciam tratar deste caso à margem de mim. Tudo se desenrolava sem a minha
intervenção. Acertavam o meu destino, sem me pedir uma opinião. De vez em quando,
tinha vontade de interromper todo mundo e dizer: "Mas afinal quem é o
acusado? É importante ser o acusado. E tenho algo a dizer." Mas pensando
bem, nada tinha a dizer. Devo reconhecer, aliás, que o interesse que se tem em
ocupar as pessoas não dura muito tempo.
- Albert Camus
O Estrangeiro
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Albert Camus
quarta-feira, 1 de junho de 2011
A Revolução dos Bichos
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| Francisco Goya (Espanha, 1746-1828) |
Andaram pé ante pé, até a casa, e os mais altos espiaram através da janela da sala de estar. Lá dentro, em volta de uma mesa grande, estavam sentados meia dúzia de granjeiros e meia dúzia de porcos dentre os mais eminentes, Napoleão, no lugar de honra, na cabeceira.
O Sr. Pilkington, da Granja Foxwood, levantara-se com o copo na mão. Disse que ia convidar os presentes para um brinde. Mas antes desejava dizer algumas palavras, que julgava ser seu dever pronunciar.
Era motivo de grande satisfação para ele - e tinha certeza de que falava por todos os demais - sentir que o longo período de desconfianças e desentendimentos chegara ao fim. (...)
Napoleão, que permanecera de pé, disse que iriam também proferir algumas palavras. Também ele, disse, alegrava-se de que o período de desentendimentos tivesse chegado ao fim.(...)
... e os animais afastaram-se em silêncio. Não haviam, porém, chegado sequer a vinte metros quando se detiveram ante o vozerio alto que vinha lá de dentro. Voltaram correndo e tornaram a espiar pela janela. De fato, era uma discussão violenta. Gritos, socos na mesa, olhares irados, furiosas negativas. A origem da briga, aparentemente, fora o fato de Napoleão e o Sr. Pilkington terem, ao mesmo tempo, apresentado um ás de espadas.
Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. (...) As criaturas que estavam de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para o porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem e quem era porco.
(George Orwell, A Revolução dos Bichos)
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George Orwell
terça-feira, 31 de maio de 2011
Nossos Defeitos
Conhecer os próprios defeitos é tarefa árdua. Até o homem mais perfeito não escapa deles. Existem defeitos do intelecto, e eles são maiores - ou se notam mais facilmente - em pessoas de grande inteligência. Não porque a pessoa não tenha consciência deles, mas porque os ama. Dois males em um: afeição irracional, concedida aos vícios. Trata-se de manchas no rosto da perfeição. Aqui o esforçado deve vencer a si mesmo, pois os defeitos são notados rapidamente por todos. Em vez de admirarem nosso talento,repisam nosso defeito, usando-o para diminuir nossos outros dons.
(Baltasar Grácian)
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Baltasar Grácian
domingo, 29 de maio de 2011
Os amantes e os loucos
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| Edvard Munch |
"Os amantes e os loucos
são de cérebro tão efervescente;
neles a fantasia é tão criadora
que enxergam o que o frio
entendimento jamais pode
entender.
O namorado, o lunático e o poeta
são compostos só de
imaginação."
imaginação."
(William Shakespeare)
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Shakespeare
sexta-feira, 27 de maio de 2011
A Punição
A punição destina-se a eliminar comportamentos inadequados, ameaçadores ou, por outro lado, indesejáveis de um dado repertório, com base no princípio de que quem é punido apresenta menor possibilidade de repetir seu comportamento. Infelizmente, o problema não é tão simples como parece. A recompensa (reforço) e a punição não diferem unicamente com relação aos efeitos que produzem. Uma criança castigada de modo severo por brincadeiras sexuais não ficará necessariamente desestimulada de continuar, da mesma forma que homem preso por assalto violento não terá necessariamente diminuída sua tendência à violência. Comportamentos sujeitos a punições tendem a se repetir assim que as contingências punitivas forem removidas.
(Burrhus Frederic Skinner)
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Skinner
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Fico quieto, seja discreto...
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| Leonid Afremov |
Fico quieto. Primeiro que paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado. Isso porque ao contar a gente tem a tendência a, digamos, “embonitar” a coisa, e portanto distanciar-se dela, apaixonando-se mais pelo supor-se apaixonado do que pelo objeto da paixão propriamente dito. Sei que é complicado, mas contar falsifica, é isso que quero dizer — e pensando mais longe, por isso mesmo literatura é sempre fraude. Quanto mais não-dita, melhor a paixão. Melhor, claro, em certo sentido que signifíca também o pior: as mais nobres paixões são também as mais cadelas, como aquelas que enlouqueceram Adele H., levaram Oscar Wilde para a prisão ou fizeram a divina Vera Fischer ser queimada feito Joana d’Arc por não ser uma funcionária pública exemplar.
(Caio Fernando Abreu)
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Caio Fernando de Abreu
terça-feira, 24 de maio de 2011
Lágrima de Preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
(António Gedeão)
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Antônio Gedeão,
Poema e Poesia
domingo, 22 de maio de 2011
Saciar o desejo
Sentia-me à vontade em tudo, isso é verdade, mas ao mesmo tempo nada me satisfazia. Cada alegria fazia-me desejar outra. Ia de festa em festa. Acontecia-me dançar noites a fio, cada vez mais louco com os seres e com a vida. Por vezes, já bastante tarde, nessas noites em que a dança, o álcool leve, o meu desenfreamento, o violento abandono de cada qual, me lançavam para um arroubo ao mesmo tempo lasso e pleno, parecia-me, no extremo da fadiga e no lapso de um segundo, compreender, enfim, o segredo dos seres e do mundo. Mas a fadiga desaparecia no dia seguinte e, com ela, o segredo; e eu atirava-me outra vez.
(Albert Camus, in "A Queda")
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Albert Camus
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Morrer
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne, a exangue máscara de cera,
Cercada de flores, que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascida menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”
Morrer mais completamente ainda
- Sem deixar sequer esse nome.
(Manuel Bandeira)
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne, a exangue máscara de cera,
Cercada de flores, que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascida menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”
Morrer mais completamente ainda
- Sem deixar sequer esse nome.
(Manuel Bandeira)
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Manuel Bandeira,
Poema e Poesia
quinta-feira, 19 de maio de 2011
O mal romântico
É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter.
(Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)
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Fernando Pessoa
quarta-feira, 18 de maio de 2011
A Moral segundo Nietzsche
![]() |
| Leonid Afremov |
... muitas ações são qualificadas como más e são apenas estúpidas, porque o grau de inteligência que foi decisivo para elas era muito baixo. Melhor ainda, num certo sentido, mesmo hoje, todas as ações são estúpidas, pois o grau mais elevado de inteligência humana, que pode ser alcançado hoje em dia, seria ainda seguramente ultrapassado: e então, ao olhar para trás, todo o nosso comportamento e todos os nossos juízos parecerão tão limitados e considerados como o comportamento e o juízo de tribos selvagens e atrasadas.
Reconhecer tudo isso pode causar uma profunda dor, mas não sem uma consolação: essas são as dores de parto. A borboleta quer romper seu casulo, ela o puxa e o rasga: então a luz desconhecida a cega e inebria, o império da liberdade. É em homens capazes dessa tristeza - quão poucos serão! - que será feita a primeira experiência para ver se a humanidade, de moral como é, se pode transformar em sábia. O sol de um novo evangelho lança seu primeiro raio sobre os mais altos cumes na alma desses indivíduos: lá, as nuvens se acumulam mais espessas que em qualquer outro lugar e, lado a lado, reinam o fulgor mais claro e o crepúsculo mais sombrio. Tudo é necessidade - é o que diz o novo conhecimento: e esse conhecimento é ele próprio necessidade. Tudo é inocência: e o conhecimento é o caminho para chegar a compreensão dessa inocência.
(Friedrich Nietzsche in Humano, Demasiado Humano)
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Nietzsche
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