"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O perigo dos hábitos

Salvador Dalí "Cannibal"

A tirania é um hábito, tem a propriedade de se desenvolver, e se dilata a tal ponto que acaba virando doença. Assevero que o melhor dos homens pode, com o hábito, acabar se transformando num animal feroz. Sangue e poder estonteiam, em geral desenvolvem a brutalidade e a perversão; o espírito e o sentimento se tornam pasto de prazeres esdrúxulos. O homem e o cidadão deixam de coexistir, surgindo então apenas o tirano e a volta ao estado de homem e cidadão se torna de todo impossível, não havendo mais consciência nem arrependimento e sim voracidade e delícia. Daí o perigo da possibilidade de um idêntico despotismo contagiar a sociedade; esse poder é infinito. Uma sociedade que se afaz a tais conjunturas já está corroída até o âmago.

(Fiodor Dostoievski, Recordações da Casa dos Mortos)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Nossos vícios

Devemos encarar com tolerância toda loucura, fracasso e vício dos outros, sabendo que encaramos apenas nossa própria loucura, fracasso e vício. Pois eles são os fracassos da humanidade à qual também pertencemos e assim temos os mesmos fracassos em nós. Não devemos nos indignar com os outros por esses vícios apenas por não aparecerem em nós naquele momento. 

(Arthur Schopenhauer)

domingo, 17 de julho de 2011

Desafio Literário

Respondendo o caro Bento Sales do blog Folhas Soltas que me mandou esse desafio que vou responder  em seguida,  porém, antes quero lhe agradecer  pelo respeito, consideração e amizade de sempre: muitíssimo obrigado!

Então ,vamos lá!



1 - Existe um livro que você leria e releria várias vezes?

Sim.  Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche


2 - Existe um livro que você começou a ler, parou, recomeçou, tentou e tentou, mas nunca conseguiu ler até o final?
Sim, Cem Anos de Solidão. Já comecei, recomecei e nunca terminei.

3 - Se você escolhesse um livro para ler para o resto da sua vida, qual seria ele?
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa.


4 - Que livro você gostaria de ter lido, mas que, por algum motivo, nunca leu?

Fausto, de Goethe. Por falta de insistência no estilo poético e sua linguagem, digamos, difícil de digerir.



5 - Qual livro que você leu cuja "cena final" você jamais conseguiu esquecer?

Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago. O livro inteira é uma tela, mas a cena final descrevendo as ruínas da civilização jamais vou esquecer.




6 - Você tinha o hábito de ler quando criança? Se lia, qual tipo de leitura?
Sim e não. Quando criança devorava histórias em quadrinhos, Asterix e Obelix, Calvin e Haroldo e tantos outros... mas fiz uma longa pausa até voltar no fim da adolescência. 


7 - Qual o livro que você achou chato, mas ainda assim o leu até o final?
A Náusea, de Sartre. Como obra filosófica é excelente e indescritível, mas como literatura é maçante.

8 - Indique alguns dos seus livros favoritos.

As Intermitências da Morte, Saramago; 
Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago; 
Ensaio Sobre a Lucidez, Saramago; 
Assim Falou Zaratustra, Nietzsche; 
Admirável Mundo Novo, Huxley; 
A Revolução dos Bichos, George Orwell; 
Elogio da Loucura, Erasmo de Roterdam; 
O Mito de Sisifo, Camus; 
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa; 
A Rua dos Cataventos, Mário Quintana;
Sentimento do Mundo, Drummond; 
O Castelo, Franz Kafka; 
Hamlet, Shakespeare; 
O Alienista, Machado de Assis; 
Pais e Filhos, Turgueniev e 

Quando Nietzsche Chorou. 




9 - Qual livro você está lendo no momento?

A Cura de Schopenhauer, Irvin Yalon e a A Grande História da Evolução, Richard Dawkins.

Agora tenho de indicar 5 blogs para o desafio.

Sabor da Letra, de Evando Oliveira.
E Versos de Fogo de William Garibalde

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A eternidade é agora

Se um dia lhe perguntarem quantos anos tem, não se apresse a responder quantos já viveu, isso já não é seu, pertence ao nada. Não se engane em responder que só tem por viver, isso também pertence ao nada. A menos que viva rolando a pedra do futuro ou do passado, carregando um peso inútil do paraíso perdido ou a miragem sonhada. Tudo que você pode responder é que tem a eternidade, afinal a eternidade é agora, cabe a nós, e somente a nós, vivermos a eternidade em nossa finitude ou sermos finitos em nossa eternidade. Viver o oitavo dia da semana, a vigésima quarta hora do ano zero...

(Alan Tykhé)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Um pássaro azul

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?


(Charles Bukowski)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Livro nosso de cada dia

Vladimir Kush
Algumas pessoas são como os bons livros, as vezes, no começo, é estranho, é difícil entender, é cansativo continuar, mas uma vez que fizemos isso, nos habituamos e passamos a compreender cada vez mais este novo mundo, ele passa a fazer parte de nós e nós dele e a ânsia de terminá-lo se mistura com a angústia de que esse mundo possa acabar, mas de fato, ele nunca acaba e nossa paciência das primeiras páginas, é recompensada com no qual podemos co-escrever algumas páginas.

- Alan Teixeira)

domingo, 26 de junho de 2011

O homem e o absurdo

Edvard Munch
Na história não faltam religiões nem profetas, mesmo sem deuses. Pedem-lhe para saltar. Tudo o que ele pode responder é que não entende bem, que isso não é coisa evidente. Só quer fazer, justamente, aquilo que entende bem. Afirmam que aquilo é pecado de orgulho, mas ele não entende a noção de pecado; talvez o inferno esteja ao final, mas ele não tem imaginação suficiente para vislumbrar esse estranho futuro; talvez perca a vida imortal, mas isso lhe parece fútil. Querem que reconheça sua culpa. Ele se sente inocente. Na verdade, só sente isto, sua inocência irreparável. É ela que lhe permite tudo. Assim, o que ele exige de si mesmo é viver somente com o que sabe, arranjar-se com o que é e não admitir nada que não seja certo. Respondem-lhe que nada é certo. Mas isto, pelo menos, é uma certeza. É com ela que tem que lidar: quer saber se é possível viver sem apelação.

- Albert Camus 
O Mito de Sísifo

sábado, 25 de junho de 2011

Revolte-se

Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Amar e Despedir-me

"Nós, os perecíveis, tocamos metais,
vento, margens do oceano, pedras,
sabendo que continuarão, imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo, nomeando todas as coisas:
foi meu destino amar e despedir-me."

(Pablo Neruda)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Permita-me sonhar

Leonid Afremov


Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
com janelas de aurora e árvores no quintal.
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.

O que desejo é apenas uma casa.
Em verdade, Não é necessário que seja azul,
nem que tenha cortinas de rendas.
Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
Quero apenas uma casa em uma rua sem nome.

Sem nome, porém honrada, Senhor.
Só não dispenso a árvore,
Porque é a mais bela coisa que
nos destes e a menos amarga.
Quero de minha janela sentir
os ventos pelos caminhos, e ver o sol
Dourando os cabelos negros
e os olhos de minha amada.

Também a minha amada não dispenso, meu Senhor.
Em verdade ele é a parte mais importante deste poema.
Em verdade vos digo, e bastante constrangido,
Que sem ela a casa também eu não queria,
e voltava pra pensão.

Ao menos, na pensão, eu tenho meus amigos
E a dona é sempre uma senhora
do interior que tem uma filha alegre.
Eu adoro menina alegre,
e daí podeis muito bem deduzir
Que para elas eu corro nas minhas horas de aflição.

Nas minhas solidões de amor e
nas minhas solidões do pecado
Sempre fujo para elas, quando não fujo delas, de noite,
E vou procurar prostitutas. Oh, Senhor vós bem sabeis
Como amarga a vida de um
homem o carinho das prostitutas!

Vós sabeis como tudo amarga
naquelas vestes amassadas
Por tantas mãos truculentas ou tímidas ou cabeludas
Vós bem sabeis tudo isso, e portanto permiti
Que eu continue sonhando com a minha casinha azul.

Permiti que eu sonhe com
a minha amada também, porque:
- De que me vale ter casa sem ter
mulher amada dentro?
Permiti que eu sonhe com uma que ame
andar sobre os montes descalça
E quando me vier beijar faça-o
como se vê nos cinemas...


O ideal seria uma que amasse fazer comparações
de nuvens com vestidos, e peixes com avião;
Que gostasse de passarinho pequeno,
gostasse de escorregar no corrimão da escada
E na sombra das tardes viesse pousar
Como a brisa nas varandas abertas...

O ideal seria uma menina boba:
que gostasse de ver folha cair de tarde...
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas ...
O ideal seria uma criança sem dono,
que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome -
senão que um sorriso triste
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto
das crianças que não têm rumo...

(Manoel de Barros)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Fim Antecipado


O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. E o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo. Seu ato é pior (considerado simbolicamente) do que qualquer estupro ou atentado a bomba, pois destrói todos os prédios; insulta a todas as mulheres. O ladrão se satisfaz com diamantes; mas o suicida não: esse é seu crime. Ele não pode ser subornado, nem com as cintilantes pedras da Cidade Celestial. O ladrão elogia os objetos que furta, quando não elogia o dono deles. Mas o suicida insulta a todos os objetos da terra ao não furtá-los. Ele conspurca cada flor ao recusar-se a viver por ela.


(G. K Chesterton)

sábado, 18 de junho de 2011

Escute o que tenho a dizer

Edvard Munch

"O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse você". A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção."

(Rubem Alves)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A Loucura do Povo

Eis a razão por que Platão declarava que os sábios se devem afastar dos negócios públicos. E exemplifica: Quando os sábios vêem um enxame de gente nas ruas, que todos os dias se deixam encharcar até os ossos debaixo de um aguaceiro, e não conseguem convencê-los a sair da chuva e a abrigar-se em casa, sabendo que, se eles mesmos viessem para a rua, em vez de os persuadirem se limitariam também a se molhar, contentam-se com ficar abrigados em suas casas, na convicção de que não lhes é possível curar a loucura do povo!

(Thomas More, "A Utopia")

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Uma mina inesgotável


Nós temos sempre necessidade de pertencer à alguma coisa; e a liberdade plena seria a de não pertencer a coisa nenhuma. Mas como é que se pode não pertencer à língua que se aprendeu, à língua com que se comunica, e neste caso, a língua com que se escreve?

Se o leitor, o leitor de livros; aquele que gosta de ler, não se imitar à quilo que se faz agora, se ele andar pra traz e começar do principio, e poder ler os primitivos e os grandes cronistas e depois os grandes poetas, a língua passa a ser algo mais que um mero instrumento de comunicação, transformando-se numa mina inesgotável de beleza e valor.

(José Saramago)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Quanto mais objetos de interesse...


Toda a desilusão é para mim uma doença que certas circunstâncias podem tornar inevitável, é verdade, mas que, quando se produz, nem por isso deve deixar de ser tratada o mais rapidamente possível, em vez de ser olhada como uma forma superior de sabedoria. Um homem, suponhamos, gosta de morangos e um outro não gosta; em que é que o último é superior ao primeiro? Não há nenhuma prova impessoal e abstracta de que os morangos sejam bons ou maus. Para quem gosta são bons, para quem não gosta são maus. Mas o homem que gosta tem um prazer que o outro não conhece; sobre este ponto, a sua vida é mais agradável e está melhor adaptado ao mundo onde ambos têm de viver. 

O que é verdadeiro neste exemplo trivial é igualmente verdade nas questões mais importantes. O homem que gosta de assistir a desafios de futebol é sob esse aspecto supeior ao homem que não gosta. O que aprecia a leitura é ainda mais superior do que aquele que não a aprecia, pois as oportunidade de ler são mais frequentes do que as de ver desafios de futebol. Quanto mais objectos de interesse um homem tem, mais ocasiões tem também de ser feliz e menos está á mercê do destino, pois se perder um pode recorrer a outro. A vida é demasiado curta para nos permitir interessar-nos por todas as coisas, mas é bom que nos interessemos por tantas quantas forem necessárias para preencher os nossos dias. Somos todos propensos à doença do introvertido que, perante o multiforme espectáculo que o mundo lhe oferece, desvia a vista para contemplar somente o vazio dentro de si. 



(Bertrand Russell, in 'A Conquista da Felicidade' )

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...