"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Natureza da Liberdade

‎Lembra teu Criador enquanto és jovem. Levanta-te despreocupado antes do alvorecer, e vai em busca de aventuras. Que o meio dia te encontre em outros lagos, e que seja lar onde quer que a noite te surpreenda. Não existem campos mais vastos a percorrer nem jogos mais importantes a jogar. Cresce agreste de acordo com a tua natureza, como aqueles juncos e samambaias que nunca se tornarão feno. Que ribombe o trovão; e daí que ele ameace a ruína das lavouras? não é a ti que ele envia seu recado. Abriga-te sob a nuvem, enquanto eles fogem para as carroças e telheiros. Que teu sustento não te seja profissão, e sim esporte. Goza a terra, não sejas o dono dela. É por falta de iniciativa e de fé que estão os homens onde estão, comprando e vendendo, gastando a vida como servos.


(Henry David Thoreau, Walden - 1854)


[Imagem: http://ojardimassombrado.blogspot.com.br/2009/02/no-lago-walden.html]

quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Raiz Intocável do Mal


"Há mil homens podando os ramos do mal para apenas um golpeando a raiz, e talvez aquele que dedica mais tempo e mais dinheiro aos necessitados seja quem mais contribui, com seu modo de vida, para gerar aquela miséria que inutilmente tenta aliviar."

(Henry David Thoreau, Walden)

‎

domingo, 15 de abril de 2012

Ética da Responsabilidade Intelectual

Tal como o que se diz "apolítico" já tomou uma posição política extremamente clara, o que se diz "cientista neutro" - figura encontrável em todos os campos da cultura, da ciência, da literatura, da universidade (sem falar naturalmente nas infinitas instâncias burocráticas) - tomou uma posição "científica" extremamente clara: a de fantoche de interesses maiores que se utilizam desta retórica para consecução de seus objetivos nada neutros.

(Ricardo Timm de Souza, "Bases éticas da responsabilidade intelectual")


quarta-feira, 11 de abril de 2012

O que somos?

Nossa história sempre começa antes mesmo de nós existirmos. A partir do momento que somos iniciados historicamente, parece haver apenas um caminho - um processo de familiarização com o mundo a tal ponto que, não necessariamente, nos leva ao final a um processo de total desfamiliarização, um divórcio absurdo com o mundo. O resultado é uma relação entranha com o mundo. Nos perguntamos então, como possível o mundo nos negar de tal forma a não podermos nos reconhecer nele, senão noutro Ser? O que resta-nos senão, buscar redescobrir, isto é, criar, imaginar, um novo sentido mágico que nos faça esquecer o que somos?

(Alan Teixeira)

sábado, 7 de abril de 2012

Um livro para quebrar o gelo

"Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve? Bom Deus, seríamos felizes precisamente se não tivéssemos livros e a espécie de livros que nos torna felizes é a espécie de livros que escreveríamos se a isso fôssemos obrigados. Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio."

(Franz Kafka)

domingo, 1 de abril de 2012

Espelho Humano

Sempre nos orientamos no mundo com base naquilo que pensamos que somos e naquilo que os outros pensam que somos, construindo a partir desta dicotomia nossa identidade. Acontece naturalmente de buscarmos aqueles que afirmam nossa identidade e evitamos aqueles que a negam. Os primeiros mostram o que há de melhor em nós, como somos bons seres humanos. Adoramos a companhia destes. 

Como todo bom homo sapiens socialis,  representamos papeis que nos tornam socialmente aceitáveis perante a moral vigente encobrindo nossas motivações e  fraquezas a tal ponto que nos "tornamos" aquilo que representamos. Porém chega o dia em que encontramos o espelho humano que nos remete a nós mesmos, nos mostrando nús e vulneráveis, como se por alguns instantes o autoconhecimento fosse possível. Nossa primeira reação é negar aquele que vemos, afastar tamanha monstruosidade de nós com violencia. Mas se agirmos com sabedoria, podemos questionarmos a nós mesmos de tal maneira que nos destruiremos e, somente assim, poderemos a partir das cinzas resurgir mais vigorosos e integros como o mito da Fenix. 

(Alan Teixeira)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Admiração

Norman Parker
"O esforço de não perder completamente o rumo, medindo o admirável é um exercício de admiração. A admiração concede asilo ao talento, ao qual não nos equiparamos. Admiração por obras que nós mesmos não somos capazes de produzir, mesmo que tivéssemos mil vidas."

(Emil Cioran)

domingo, 18 de março de 2012

Sociedade de Consumo

"Da mesma maneira que a sociedade da Idade Média se equilibrava em Deus e no Diabo, assim a nossa se equilibra no consumo e na sua denúncia. Em torno do Diabo, era ainda possível organizar heresias e seitas de magia negra. Mas, a magia que temos é branca, e não é possível qualquer heresia na abundancia. É a alvura profiláctica de uma sociedade saturada, de uma sociedade sem vertigem e sem história, sem outro mito além de si mesma."

(Jean Baudrillard in "Sociedade de Consumo")

domingo, 11 de março de 2012

A Condição Humana

Fluindo na direção da morte, a vida do homem arrastaria consigo, inevitavelmente, todas as coisas humanas para a ruína e a destruição, se não fosse a faculdade humana de interrompê-las e iniciar algo novo, faculdade inerente à ação como perene advertência de que os homens, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para começar. 

(Hannah Arendt "A Condição Humana")

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O que será?

No decorrer dos dias enquanto o tempo me consome eu observo o movimento. O movimento dos astros, dos pássaros, das folhas que o vento sopra, da chuva que cai. Tudo parece perfeito, perfeitamente estranho, estranhamente absurdo, absurdamente incompreensível. Observo comportamento dos viajantes, pedestres, passantes e não os compreendo. Um pensamento perturbador se apodera de mim "será isto um pesadelo? Será que ainda demorarei a acordar?". O tempo passa, não acordo, e a lucidez se apodera de mim, talvez não seja eu que esteja a sonhar... ou talvez delirar.

(Alan Teixeira)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Excentricos

Escher
"O que há de revoltante num estilo de vida individual. As pessoas se irritam com aqueles que adotam padrões de vida muito individuais; elas se sentem humilhadas, reduzidas a seres ordinários, com o tratamento extraordinário que eles dispensam a si mesmos."

- Friedrich Nietzsche
Humano, Demasiado Humano

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Esperança














Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...


[Mário Quintana]

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Cosmos e a Ciência

Precisamos abraçar os ensinamentos de uma nova visão científica do mundo, onde o poder criativo da Natureza reside nas suas imperfeições, e não na sua perfeição; onde a vida, e mesmo a nossa existência, é frágil e preciosa. Dentro dessa nova visão, nosso conhecimento do mundo será sempre limitado. Não existe uma Teoria Final, apenas uma descrição cada vez mais precisa da realidade em que vivemos. 

Sei que a transição não será fácil. Teremos que confrontar com humildade a verdadeira dimensão da nossa existência, num cosmos indiferente à nossa presença. Por sermos pequenos e frágeis, somos únicos e preciosos, agregados raros de átomos inanimados capazes de reflexão. Em apenas alguns milênios, nos desenvolvemos a ponto de hoje mudar o curso da história do nosso planeta e, portanto, o da nossa também. A coexistência do nosso poder destrutivo com a fragilidade do nosso planeta é precária. A humanidade encontra-se numa encruzilhada. As decisões que tomaremos nas próximas décadas definirão o futuro da nossa espécie e o da nossa casa planetária. Apesar de a estrada ser longa, o primeiro passo é simples: entender que nada é mais importante do que a preservação da vida. 

(Marcelo Gleiser "A Criação Imperfeita")

domingo, 18 de dezembro de 2011

A Justiça é o pão do povo

















A justiça é o pão do povo.
Às vezes bastante, às vezes pouca.
Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
Quando o pão é pouco, há fome.
Quando o pão é ruim, há descontentamento.

Fora com a justiça ruim!
Cozida sem amor, amassada sem saber!
A justiça sem sabor, cuja casca é cinzenta!
A justiça de ontem, que chega tarde demais!
Quando o pão é bom e bastante
O resto da refeição pode ser perdoado.
Não pode haver logo tudo em abundância.
Alimentado do pão da justiça
Pode ser feito o trabalho
De que resulta a abundância.

Como é necessário o pão diário
É necessária a justiça diária.
Sim, mesmo várias vezes ao dia.



(Bertolt Brecht)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Navegar é preciso...


"Ficamos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de sentir viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso."

(Fernando Pessoa "Livro do Desassossego")
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