"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Esperança














Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...


[Mário Quintana]

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Cosmos e a Ciência

Precisamos abraçar os ensinamentos de uma nova visão científica do mundo, onde o poder criativo da Natureza reside nas suas imperfeições, e não na sua perfeição; onde a vida, e mesmo a nossa existência, é frágil e preciosa. Dentro dessa nova visão, nosso conhecimento do mundo será sempre limitado. Não existe uma Teoria Final, apenas uma descrição cada vez mais precisa da realidade em que vivemos. 

Sei que a transição não será fácil. Teremos que confrontar com humildade a verdadeira dimensão da nossa existência, num cosmos indiferente à nossa presença. Por sermos pequenos e frágeis, somos únicos e preciosos, agregados raros de átomos inanimados capazes de reflexão. Em apenas alguns milênios, nos desenvolvemos a ponto de hoje mudar o curso da história do nosso planeta e, portanto, o da nossa também. A coexistência do nosso poder destrutivo com a fragilidade do nosso planeta é precária. A humanidade encontra-se numa encruzilhada. As decisões que tomaremos nas próximas décadas definirão o futuro da nossa espécie e o da nossa casa planetária. Apesar de a estrada ser longa, o primeiro passo é simples: entender que nada é mais importante do que a preservação da vida. 

(Marcelo Gleiser "A Criação Imperfeita")

domingo, 18 de dezembro de 2011

A Justiça é o pão do povo

















A justiça é o pão do povo.
Às vezes bastante, às vezes pouca.
Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
Quando o pão é pouco, há fome.
Quando o pão é ruim, há descontentamento.

Fora com a justiça ruim!
Cozida sem amor, amassada sem saber!
A justiça sem sabor, cuja casca é cinzenta!
A justiça de ontem, que chega tarde demais!
Quando o pão é bom e bastante
O resto da refeição pode ser perdoado.
Não pode haver logo tudo em abundância.
Alimentado do pão da justiça
Pode ser feito o trabalho
De que resulta a abundância.

Como é necessário o pão diário
É necessária a justiça diária.
Sim, mesmo várias vezes ao dia.



(Bertolt Brecht)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Navegar é preciso...


"Ficamos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de sentir viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso."

(Fernando Pessoa "Livro do Desassossego")

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Eterna Criança


Com a força do seu olhar intelectual e da sua penetração espiritual cresce a distância e, de certo modo, o espaço que circunda o homem: o seu mundo torna-se mais profundo, avistam-se continuamente estrelas novas, imagens novas e novos enigmas. Talvez tudo aquilo em que o olhar do espírito exercitou a sua sagacidade e profundeza tenha sido apenas um pretexto para este exercício, um jogo e uma criancice e infantilidade. E talvez um dia os conceitos mais solenes, os que provocaram maiores lutas e maiores sofrimentos, os conceitos de «Deus» e do «pecado», não signifiquem, para nós, mais do que um brinquedo e um desporto de criança significam para um velho, - e talvez o «velho homem» tenha, então, necessidade de um outro brinquedo ainda e de um outro desgosto, - por continuar a ser muito criança, eterna criança!

- Friedrich Nietzsche,
Para Além de Bem e Mal

domingo, 4 de dezembro de 2011

A Boa Nova

H. Bosch - Temptation of Saint Anthony
À entrada estão os levitas à espera dos que vêm oferecer sacrifícios, porém neste lugar a atmosfera será tudo menos piedosa, salvo se a pidade era então compreendida doutra maneira, não é só o cheiro e o fumo das gorduras estorricadas, do sangue fresco, do incenso, é também o vozear dos homens, os berros, os balidos, os mugidos dos animais que esperam vez no matadouro, o último e áspero grasnido duma ave que antes soubera cantar. Maria diz ao levita que os atendeu que vem para a purificação e José entrega as rolas. (...)

Lá dentro é uma forja, um talho e um matadouro. Em cima de duas grandes mesas de pedra prepara-se as vítimas de maiores dimensões, os bois e os vitelos, sobre-tudo, mas também carneiros e ovelhas, cabras e bodes. Perto das mesas encontram-se uns altos pilares onde se dependuram, em ganchos chumbado na pedra, as carcaças das reses e vê-se a frenética actividade do arsenal dos açougues, as facas, os cutelos, o machados, os serrotes, a atmosfera está carregada dos fumos da lenha e dos coiratos queimados, de vapor de sangue e de suor, uma alma qualquer, que nem precisará ser santa, das vulgares, terá dificuldade em entender como poderá Deus sentir-se feliz em meio de tal carnificina, sendo, como diz que é, pai comum dos homens e das bestas. (...)
Ninguém dá atenção ao que se passa, é apenas uma pequena morte. José, de cabeça levantada, quereria perceber, identificar, entre o fumo geral e os cheiros gerais, o fumo e o cheiro do seu sacrificio, quando o sacerdote, depois de salgar a cabeça e o corpo da ave, os atirar à fogueira.

(José Saramago "O Evangelho Segundo Jesus Cristo")

domingo, 27 de novembro de 2011

Amor Fati

Leonid Afremov

"... vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a minha vida! É aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: seja esse de agora em diante o meu amor. Não quero fazer guerra ao feio. Nâo quero acusar nem mesmo os acusadores. Desviarei o meu olhar, será essa, de ora em diante, a minha única negação! E, numa palavra final, não quero, a partir de hoje, ser outra coisa senão um afirmador."

- Friedrich Nietzsche

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Ilusão da Liberdade

A experiência faz ver, portanto, tão claramente como a razão, que os homens se julgam livres apenas porque são conscientes das suas ações e ignorantes das causas pelas quais são determinados; e, além do mais, que as decisões da alma nada mais são que os próprios apetites, e, por conseguinte, variam conforme as várias disposições do corpo. Cada um, como efeito, governa tudo segundo a sua afecção própria. 


(Spinoza in "Ética, III)

domingo, 13 de novembro de 2011

Meu Coração

Edvard Munch
Meu coração de pedra
Meu coração de aço
Atrofiou sofridamente
Como coração de gato

Sete vezes morre
Oito vezes nasce
Silenciosamente
Sobrevive no vácuo

Na contradição da vontade
A chuva é escassa
Eis a verdade

Os amores já morreram,
Da coração saudável
Só restou a saudade.

(John Bernard Calvin)

sábado, 5 de novembro de 2011

O Silêncio


"Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato. Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más."

(José Saramago “As Palavras”, 1968)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Arrogância


A arrogância não é nenhum meio adequado para se chegar a qualquer forma de entendimento com as pessoas que nos rodeiam e que menosprezamos, pelo que nos são insuportáveis. Mas, se não tivéssemos a arrogância, estaríamos perdidos, pois ela não é senão um meio de impormos a nossa vontade contra um mundo que de outro modo é, portanto, sem essa arrogância, nos devoraria por completo. Ele não teria por nós o mínimo respeito. Nós temos de a ele nos antecipar com a nossa própria arrogância, empregá-la onde ela nos salva de sermos devorados.


(Thomas Bernhard)

domingo, 23 de outubro de 2011

Da vitória sobre si mesmo


É preciso que eu seja luta e sucesso e fim e contradição dos fins. Ai! Aquele que advinha minha vontade advinha também os caminhos tortuosos que precisa seguir. Seja qual for a coisa que eu crie e o amor que lhe tenha em breve devo ser seu adversário e o adversário do meu amor: assim o quer a minha vontade.

E tu também, investigador, não és mais do que a senda e a pista da minha vontade: a minha vontade de potencia segue também as pegadas da tua vontade de verdade.

Certamente não encontrou verdade aquele que falava da vontade de existir; não há tal vontade. Porque o que não existe não pode querer; mas como poderia o que existe ainda desejar a existência! Só onde há vida há vontade; não vontade de vida, mas como eu ensino, vontade de potência. Há muitas coisas que o vivente aprecia mais do que a vida; mas nas próprias apreciações fala a vontade de potência. 



 (Friedrich Nietzsche in 'Assim Falou Zaratustra')

"A vontade é impotente perante o que está por trás dela. Não pode destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade."


(Friedrich Nietzsche)

sábado, 22 de outubro de 2011

Dias Irreconhecíveis


"Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo"? Essa indagação perplexa é o lugar-comum da cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão emaranhada em ti mesma como os seus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta."

 (Paulo Mendes Campos)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sábios?

Já não sou um sábio para as ovelhas : assim o quer a minha sorte. Bendita seja! Porque é esta a verdade: saí da casa dos sábios atirando com a porta. Demasiado tempo esteve a minha alma faminta sentada à sua mesa; eu não estou assim como eles, adestrado para o conhecimento como para descascar nozes. 

Amo a liberdade e o ar na terra fresca; e até me agrada mais dormir em peles de bois do que nas suas honrarias e dignidades. Sou ardente demais e estou demasiado consumido pelos próprios pensamentos; falta-me com frequência a respiração; então necessito procurar ar livre e sair de todos os compartimentos empoeirados. 

Eles, porém, estão sentados muito frescos à sombra: em parte alguma querem passar de espectadores, e guardam-se bem de se sentar onde o sol caldeia os degraus. Com os que se postam no meio da rua a olhar de boca aberta quem passa, assim eles aguardam de boca aberta os pensamentos dos outros. (...) Se dão mostras de sábios, horrorizam-me com suas pequenas sentenças e verdades: a sua sabedoria cheira amiúde como se saísse de um pântano, e indubitavelmente já nele ouvi cantar rãs. 

(Friedrich Nietzsche "Assim Falou Zaratustra)

sábado, 15 de outubro de 2011

Uma perspectiva crítica em psicologia

"'Uma outra vez quis saltar por um brejo mas, quando me encontrava a meio caminho, percebi que era maior do que imaginara antes. Puxei as rédeas no meio do meu salto, e retornei à margem que acabara de deixar, para tomar mais impulso. Outra vez me saí mal e afundei no brejo até o pescoço. Eu certamente teria perecido se, pela força de meu próprio braço, não tivesse puxado pelo meu próprio cabelo preso em rabicho, a mim e a meu cavalo que segurava fortemente entre os joelhos.' (Barão de Munchhausen - Raspe, s/data p. 40).

É essa a melhor imagem que encontramos para designar a ideologia do esforço próprio de cada um para desenvolver a si mesmo e ao potencial contido em sua natureza. 

Assim, há anos a Psicologia tem contribuído para responsabilizar os sujeitos por seus sucessos e fracassos... A Psicologia não tem sido capaz de, ao falar do fenômeno psicológico, falar de vida, das condições econômicas, sociais e culturais nas quais se inserem os homens. A Psicologia tem, ao contrário, contribuído significativamente para ocultar essas condições. Fala-se da mãe e do pai sem falar da família como instituição social marcada historicamente pela apropriação dos sujeitos; fala-se da sexualidade sem falar da tradição judaico-cristã de repressão a sexualidade; fala-se da identidade das mulheres sem se falar das características machistas de nossa cultura; fala-se do corpo sem inseri-lo na cultura; fala-se de habilidade e aptidões de um sujeito sem falar das suas reais possibilidades de acesso à cultura; fala-se do homem sem falar do trabalho; fala-se do psicológico sem falar do cultural e do social. Na verdade, não se fala de nada. Faz-se ideologia."

(Ana Mercês Bahia Bock)


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