"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Sobre os Nadas

 Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - Ele continuou.
Que sim, respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os articuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de agramática.

Manoel de Barros,
Livro das Ignorãças

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Por Quem os Sinos Dobram

Nenhum homem é uma ilha, um ser inteiro em si mesmo; todo é uma partícula do continente, uma parte da terra. Se um pequeno torrão carregado pelo mar deixa menor a europa, como se todo um promontório fosse, ou a herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque eu pertenço à humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti. 

John Donne

domingo, 6 de março de 2016

Sucesso

Van Gogh
Rir muito e com frequência; ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; merecer a consideração de críticas honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza, encontrar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma saudável criança, um canteiro de jardim ou redimida condição social; saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque você viveu. Isso é ter sucesso!

Ralph Waldo Emerson

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Filósofos

"Tenho lido os filósofos. São uns caras realmente estranhos, engraçados e loucos. Jogadores. Descartes veio e disse: é pura bobagem o que esses caras estão falando. Disse que a matemática era o modelo da verdade absoluta e óbvia. Mecanismo. Então, Hume veio com seu ataque à validade do conhecimento científico causal. E depois veio Kierkegaard: “Enfio meu dedo na existência – não tem cheiro de nada. Onde estou?”. E depois veio Sartre, que sustentava que a existência é absurda. Adoro esses caras. Embalam o mundo. Será que tinham dor de cabeça por pensar dessa forma? Será que uma torrente de escuridão rugia entre seus dentes? Quando você pega homens como esses e os compara aos homens que vejo caminhando nas ruas ou comendo em cafés ou aparecendo na tela da TV, a diferença é tão grande que alguma coisa se contorce dentro de mim, me chutando as tripas."

Charles Bukowski,
O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Grandezas do Ínfimo


A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.”
 
Tratado geral das grandezas do ínfimo, Manoel de Barros

domingo, 17 de janeiro de 2016

Via era smarrita

Cristobal Rojas, Dante e Beatrice














'Ó alma generosa mantuana,
de quem a fama ainda no mundo dura
e durará quanto a memória humana,

o amigo meu, mas não de sua ventura,
na deserta encosta está impedido
que, de pavor, sua volta já procura;

e temo que se encontre tão perdido
que eu tarde esteja a o socorrer levada,
pelo que dele foi no céu ouvido.

Vai então, e co' a tua fala ilustrada
e o que mais de salvá-lo for capaz,
ajuda-o pra que eu seja confortada.

Eu sou Beatriz, que peço que tu vás,
venho de aonde retornar almejo,
amor moveu-me, que falar me faz.

Quando do meu senhor ao bom bafejo
voltar, irei de ti falar-lhe bem'.
Calou-se então e eu tomei meu ensejo:

'Ó mulher de virtude, só por quem
tem tudo a humana espécie superado
que em sua primeira esfera o céu contem,

tanto a obediência acolho de bom grado
que seria tarda inda que já cumprida:
baste-me o teu querer manifestado.

Mas dizes-me, por que não te intimida
aqui desceres neste fundo centro,
do amplo lugar à volta te convida?'

'Desde que queres saber tão adentro',
ela me respondeu, "vou te dizer
por que não temo chegar aqui dentro:

Temer deve-se a coisa em que o poder
de nos causar o mal se manifesta,
as outras não, das quais não há temer.

Tal fui feita por Deus, sua mercê, que esta
vossa fatal miséria não me afeta,
nem chama deste incêndio me molesta.

Mulher gentil há no céu que se inquieta
co' o transe aonde ora estou te remetendo,
que mais severo julgamento veta;

ela a Luzia pediu, dizendo:
'Agora aquele adepto teu fiel
de ti precisa e a ti o recomendo'.

Luzia, adversa a tudo que é cruel,
logo moveu-se vindo procurar-
-me onde eu sentava co' a antiga Raquel.

'Beatriz, glória de Deus', disse, 'salvar
quem mais te amou não vais, na desventura?
que tu elevaste da turba vulgar?

Não ouves tu ao seu pranto a amargura
e já não vês a morte como o afronta
sobre a torrente que o mar não segura?

Nunca pessoa no mundo foi tão pronta
pra evitar dano ou procurar proveito
como eu após apalavras de tal monta:

desci cá embaixo, do meu posto eleito,
por confiar em tua palavra honesta
que honra é pra ti e pra os que a têm aceito'.

Ao terminar essa sua fala mesta
em lágrimas luzindo o olhar volveu,
o que esta minha vinda fez mais presta;

e a ti cheguei como ela prescreveu,
e aquela fera afastei da tua frente
que ao monte ameno bostou o caminho teu.

Divina Comédia, Inferno - Canto II,
Dante Alighieri

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Da Comédia

Quantas ilusões são necessárias perdermos para finalmente encontrarmos aquela paz de espírito que nem os caminhos mais tortuosos são capazes de perturbar? Aquela desconfiança alegre que quer troçar de tudo que não ri de si mesmo, de tudo que não duvida e de tudo aquilo que aspira ao absoluto. Rir, dançar, cantar, ali onde a seriedade reina absoluta, sem perceber que és parte da comédia, até esvaziar se por completo, onde a verdadeira arte começa. 

Alan Teixeira

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Perspectivas

Noite Estrelada - Van Gogh
Há certas paisagens que só podem ser vistas a partir de determinadas perspectivas. O tempo, as alegrias, as dores e angústias são as lentes que atravessam meu olhar e constituem o colorido de cada paisagem. Quando a serenidade e o amor repousa em minha alma, incontáveis são as cores e melodias que emanam em minha existência. Queria viver apenas para estes momentos em que sinto a existência em sua plenitude. O prazer deseja a eternidade, mas a inconstância da existência diz "tudo passa" e uma simples teia que se desprende desequilibra e se rompe com o vento. Então à terra é preciso voltar e é preciso também transcendê-la novamente, porque a dor, essa também passa. Há sempre um novo horizonte longínquo a ser explorado. Desta vez irei apenas voltar meu olhar para o céu, esperarei a chuva passar, a guerras e a espada. E quando finalmente a noite cair e eu já puder ver as estrelas, para elas irei cantar as canções que na guerra eu não pude cantar. 

Alan Teixeira


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Amizade

Existem pessoas que, só por existirem e fazer parte de nossas vidas, tornam os nossos dias melhores. Algumas delas nos ensinam, sem saber que ensinam, a sermos também melhores. Frequentemente aprendemos, rimos, choramos, cúmprices numa amizade que como um raio de luz ilumina o dia mais nublado. E essa espécie de amor nos inspira a sermos dignos dessa amizade. 


Alan Teixeira

domingo, 13 de dezembro de 2015

Kafka

"De um certo ponto em diante não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado."

Franz Kafka

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Ladri di biciclette
Nos separamos bruscamente sem nos despedir. Ficamos devendo um ao outro muitas palavras. Sob a guarda do silêncio permaneceu nossas faltas. Bastava um minuto de reconciliação para reparar toda uma vida. Mas esse minuto não veio e o perdemos definitivamente. Nos protegemos demais em vez de enfrentar juntos nossa batalha. Agora pesa me falta do peso que contrapõe e equilibra. Deveríamos tê-los lançado fora juntos. Teríamos assim, não uma nova vida, mas muito mais de nós mesmos e talvez a paz de que necessitávamos.

Alan Teixeira

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Homem, presta atenção




Homem, presta atenção
O que diz a profunda meia-noite?
Eu dormia, dormia
e de um profundo sonhar eu despertei.
O mundo é profundo
Mais profundo do que o pensa o dia
Profunda é sua dor
O prazer – mais profundo ainda que a dor
A dor diz: Passa!
Mas todo prazer deseja eternidade
Uma profunda, profunda Eternidade.

Friedrich Nietzsche,
Assim Falou Zaratustra

terça-feira, 21 de abril de 2015

Esclarecer

"O conhecimento não tem outra luz além daquela que, a partir da redenção, dirige seus raios sobre o mundo (...). Seria produzir perspectivas nas quais o mundo analogamente se desloque, se estranhe, revelando suas fissuras e fendas, tal como um dia, indigente e deformado, aparecerá na luz messiânica. Obter tais perspectivas sem arbítrio nem violência, a partir tão somente do contato com os objetos, é a única coisa que importa para o pensamento. É a coisa mais simples de todas, porque a situação clama irrecusavelmente por esse conhecimento, mais ainda, porque a perfeita negatividade, uma vez encarada face a face, se consolida na escrita invertida de seu contrário" (1992, p. 216). 


Adorno, 
Mínima Moralia

domingo, 19 de abril de 2015

Eu sou vários. Há multidões em mim.

"Eu sou vários. Há multidões em mim. Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles.Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo. Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa, nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos um dos tantos que sou, e correrei os riscos de estarmos juntos no mesmo plano. Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e que quando se solta me envergonha. Não sou santo, nem exemplo, infelizmente. Entre tantos, um dia me descubro, um dia serei eu mesmo, definitivamente. Como já foi dito: ouse conquistar a ti mesmo."



Nietzsche, Gaia Ciência
 

sábado, 14 de março de 2015

Se te Queres Matar

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...

Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera

As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.

Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Álvaro de Campos
(Fernando Pessoa)
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