"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Lógica da Linguagem


"A maioria das proposições e questionamentos que se têm escrito sobre questões filosóficas não é falsa, mas destituída de sentido. Não podemos, portanto, absolutamente responder questões desse gênero, mas apenas reconhecer sua ausência de sentido. A maioria das questões e proposições dos filósofos resulta do fato de que não entendemos a lógica de nossa própria linguagem."

- Ludwig Wittgenstein

domingo, 4 de novembro de 2012

Questão da Oipnião!

Jacques Resch

A ciência, tanto por sua necessidade de coroamento como por princípio, opõe-se absolutamente à opinião. Se, em determinada questão, ela legitimar a opinião, é por motivos diversos daqueles que dão origem à opinião; de modo que a opinião está, de direito, sempre errada. A opinião pensa mal; não pensa: traduz necessidades em conhecimentos. Ao designar os objetos pela utilidade, ela se impede de conhecê-los. Não se pode basear nada na opinião: antes de tudo, é preciso destruí-la. Ela é o primeiro obstáculo a ser superado. Não basta, por exemplo, corrigi-la em determinados pontos, mantendo, como uma espécie de moral provisória, um conhecimento vulgar provisório. O espírito científico proíbe que tenhamos uma  opinião sobre questões que não compreendemos, sobre questões que não sabemos formular com clareza. Em primeiro lugar, é preciso saber formular problemas. E, digam o que disserem, na vida cientifica os problemas não  se formulam de modo espontâneo. E justamente esse  sentido do problema  que caracteriza o verdadeiro espírito científico. Para o espírito científico, todo conhecimento é resposta a urna pergunta. Se não há pergunta, não pode haver conhecimento científico. Nada é evidente. Nada é gratuito. Tudo é construído.

Gaston Bachelard,
A Formação do Espírito Científico

sábado, 13 de outubro de 2012

O Sistema

Filósofos são um tipo generoso de sujeito, desejosos de ajudar os outros "por escrito", mas ainda têm alguma coisa de loucos, com sua "ridícula rigidez solene e seu ar e importância livresca". Sentem piedade das gerações passadas, que viveram quando o Sistema supostamente não estava acabado, e quando, portanto, a objetividade não tendenciosa ainda não era possível. Mas quando você lhes pergunta sobre o novo Sistema, sempre o dispensam com a mesma desculpa: "Não, ainda não está completamente pronto. O Sistema está quase concluído, ou pelo menos em construção, e estará terminado no próximo domingo."

Soren Kierkegaard,
Pós-escrito

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Do Conhecimento

Se tomarmos em nossas mãos qualquer volume de teologia ou da escola metafísica, por exemplo; vamos perguntar: contém qualquer raciocínio abstrato a respeito de quantidade ou número? Não. Contém algum raciocínio experimental concernente a algo prático ou à existência? Não. Então condene-o às chamas: pois nada pode conter além de sofismas e ilusões. 

- David Hume,
(Edimburgo,  1711 - 1776)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ética e Liberdade

Entendo a moral como uma construção histórica e não-natural que jamais deve ser imposta seja a quem for, só tem valor a medida que é uma escolha individual e intransferível, com a mesma certeza de que cada um de nós viverá a própria morte. A ética, por sua vez, é o que torna possível o exercício da liberdade, da responsabilidade e da política. Todo moralismo se constitui numa violentação da liberdade. 

- Alan Teixeira

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Delicado Abismo

Se me perguntassem sobre Ofélia e seus pais, teria respondido com o decoro da honestidade: mal os conheci. Diante do mesmo juri ao qual responderia: mal me conheço - e para cada cara de jurado diria com o mesmo límpido olhar de quem se hipnotizou para a obediência: mal vos conheço. Mas às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem.

- Clarice Lispector, 
Felicidade Clandestina

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Irresponsabilidade Política

A busca irresponsável de interesses privados na esfera público-política é tão prejudicial ao bem público quanto a arrogante tentativa dos governos de regular a vida privada de seus cidadãos é prejudicial para a felicidade privada.

- Hannah Arendt,
Public rigths and private interests

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Profetas do Comércio

Vemos agora surgir, de várias maneiras, a cultura de uma sociedade em que o comércio é a alma, assim como a peleja individual para os antigos gregos, e a guerra, a vitória e o direito para os romanos. O mercador sabe estimar o valor de tudo sem produzi-lo, e estimar o valor  segundo a necessidade dos consumidores, não segunda suas próprias necessidades; 'quem e quantos consomem isto?' é sua grande pergunta. Esse gênero de estimativa ele emprega instintiva e incessantemente para tudo, também para as realizações da arte e da ciência, dos pensadores, doutores, artistas, estadistas, de povos e partidos, de épocas inteiras: em relação a tudo o que é produzido ele pergunta pela oferta e a demanda, a fim de estabelecer para si o valor de uma coisa. Isto alçado em caráter de toda uma cultura, pensando com o máximo de amplidão e sutileza, e impondo-se toda vontade e capacidade: é disso que vocês, homens do próximo século [XX], estarão orgulhosos: se os profetas da classe mercadora em colocá-los na sua posse! Mas eu não tenho fé nestes profetas.

- Friedrich Nietzsche,
Aurora

domingo, 12 de agosto de 2012

O que estamos fazendo?

A crise que ocorre hoje no mundo é política. Todas as outras derivam daí. O fenômeno de despolitização do mundo cria indivíduos apolíticos - o que não é o mesmo que anti-políticos - desinteressados pelo curso da história e sem senso histórico. Vivem o dia que se passa à merce das decisões que governam o mundo. Trabalhando e descansando, produzindo e consumindo, com a mesma regularidade feliz e sem propósito da noite que sucede ao dia. A ação política sempre foi a mão e o machado da produção histórica. Diz Hannah Arendt* que a liberdade é a razão de ser da política, e seu domínio de experiência é a ação, isto quer dizer, entre outras coisas, que o homem é por excelência um animal político e ativo, é no seio da cidade que surge também a preocupação ética com a ação. "O que proponho, portanto, é muito simples: trata-se de pensar o que estamos fazendo"**.

- Alan Teixeira



* Hannah Arendt, 
Entre o Passado e o Futuro.
** Hannah Arendt, 
A Condição Humana

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Nosso Tempo



Criança Morta, Portinari














I
Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II
Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III
E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.

IV
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V
Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI
Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII
Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 31 de julho de 2012

As Fontes


Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um vôo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

- Sophia de Mello Breyner

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Vazio da Loucura

Jacques Resch
‎A substituição do tema da morte pelo da loucura não marca uma ruptura, mas sim uma virada no interior da mesma inquietude. Trata-se ainda do vazio da existência, mas esse vazio não é mais reconhecido como termo exterior e final, simultaneamente ameaça e conclusão; ele é sentido do interior, como forma contínua e constante da existência.

- Michel Foucault,
História da Loucura

domingo, 29 de julho de 2012

Caminho Resvaloso


Todo caminho da gente é resvaloso. Mas também, cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!... O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa..., Sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, E ainda mais alegre no meio da tristeza... 

- João Guimarães Rosa,
Grande Sertão Veredas

sábado, 28 de julho de 2012

Tykhé

"Nunca se sabe antecipadamente como alguém vai aprender, por quais amores se torna bom em latim, por quais encontros se é filósofo, em quais dicionários se aprende a pensar."

- Gilles Deleuze

terça-feira, 24 de julho de 2012

Palavra e Ato

O poder só é efetivado enquanto a palavra e o ato não se divorciam, quando as palavras não vazias e os atos não são brutais, quando as palavras não são empregadas para velar intenções, mas revelar realidades, e os atos não são usados para violar e destruir, mas para criar novas realidades.

Hannah Arendt,
A Condição Humana

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Pedagogia da Autonomia

A liberdade que não faz uma coisa porque teme o castigo não está 'eticizando-se'. É preciso que eu aceite a necessidade ética, aí o limite é compromisso e não mais imposição, é assunção. O castigo não faz isso. O castigo pode criar docilidade, silêncio. Mas os silenciados não mudam o mundo. 

- Paulo Freire, 
Pedagogia dos Sonhos Possíveis

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A Miséria da Criatura


Quando o coração é sensível e o espírito contundente, basta lançar um olhar sobre o mundo para ver a miséria da criatura e pressentir as vias da redenção; se são insensíveis e embotados, serão necessárias perturbações maciças para desencadear sensações fracas. É assim que um príncipe mimado se apercebeu pela primeira vez de um mendigo, de um doente e de um morto ― e tornou-se assim em Buda; em contrapartida, um escritor contemporâneo vive a experiência de montanhas de cadáveres e do horroroso aniquilamento de milhares de indivíduos nas conturbações do pós-guerra na Rússia ― e conclui que o mundo não está em ordem e tira daí uma série de romances muito comedidos. Um, vê no sofrimento a essência do ser e procura uma libertação no fundamento do mundo; o outro, vê-a como uma situação de infelicidade à qual se pode, e deve, remediar ativamente. Tal alma sentir-se-á mais fortemente interpelada pela imperfeição do mundo, enquanto a outra sê-lo-á pelo esplendor da criação. Um, só vive o além como verdadeiro se ele se apresentar com brilho e com grande barulho, com a violência e o pavor de um poder superior sob a forma de uma pessoa soberana e de uma organização; para o outro, o rosto e os gestos de cada homem são transparentes e deixam transparecer nele a solidão de Deus. 

- Eric Voegelin

Alienação Consumista


Jacques Resch

Não compramos objetos para possuí-los e sim para destruí-los. A cada nova compra já estamos pensando na próxima. A efemeridade da moda acaba funcionando como antídoto para curar a ansiedade e saciar em pequenas porções a sede de emoções. A cada semana, uma nova coleção na vitrine, a cada dia um novo capítulo na novela das oito, a cada seis meses a nova versão do carro do ano, um novo restaurante imperdível é inaugurado. Somos todos, então, fantoches no “teatro” do consumo. O que quer dizer que os sujeitos não têm mais a preocupação, ao consumir, em buscarem objetos duráveis e que permitam a eles identificarem-se em um conjunto homogêneo de outros sujeitos, como o era na época da estética da estabilidade pregada pelo fordismo, mas, diferentemente disso, o que desperta a atenção dos consumidores são objetos fugazes e que permitam que os mesmos se distingam em um determinado meio social.

Jean Baudrillard,
Sociedade de Consumo

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Sociedade é um Crime Perfeito


Domingo, 15 de julho de 2012.


Eu estava num ônibus com destino à São Paulo, SP. O ônibus fez uma parada na cidade de Governador Valadares, MG, para trocar de motorista. Desci do ônibus e fui ao banheiro, quando voltei fui abordado por um homem de aparentemente 35 anos, mal vestido e com odor que denunciava, não somente o tempo em que ele estava sem banho, mas o crime perfeito de uma sociedade saturada. Ouvi-o pedir 25 centavos, porém o preconceito por estranhos mal vestidos travestido em medo, me obrigou a ignorá-lo e antes de entrar no ônibus olhei para trás e visualizei novamente aquele homem. Um olhar penetrante que pedia socorro, um olhar inocente e ao mesmo tempo culpado. Um olhar que denunciava silenciosamente o meu crime. Não sei o seu nome, a sua história, de onde vinha e pra onde iria. Não sei se tem ao menos uma família. Não sei onde está. E nem sei sequer se está vivo ou morto. Não sei se é mais um destes expulsos dos grandes centros pela policia ou política de "limpeza urbana" com uma passagem na mão para uma terra distante. Ou se é um destes expulsos de casa pelas próprias famílias.

O crime perfeito de uma sociedade saturada que inflige a culpa e o castigo da exclusão sobre todos aqueles que não se enquadram. Lhes negam emprego, negam trabalho, negam uma moradia, negam o pão de cada dia. Não lhes é permitido ficar em lugar nenhum lugar, porque o lugar não somente não os pertence, como pertence legalmente a alguém. São obrigados a ficar vagando de um lugar para o outro. Ao lhes negar emprego ou trabalho implicitamente também lhes negam o status de cidadão, lhes negam dignidade e até mesmo direito de possuir uma alma, se for realmente verdade que o trabalho dignifica a alma. Lhes negam até o direito de existir. Talvez se lhes dessem a oportunidade, mudariam até de planeta, desde que pudessem ter uma alma, dignidade e um trabalho.


Sentimos compaixão por eles não porque somos bons, mas porque sentimo-nos culpados diante deles. Nenhum crime de guerra, holocausto ou genocídio se compara com o nosso crime diário. Em todos os lugares do mundo, não poupamos homens, mulheres ou crianças de nenhuma nacionalidade, de nenhuma etnia, de nenhuma religião. Chegamos ao absurdo fato de que para existir precisamos possuir. Possuir casas, carros apartamentos, dinheiro. Precisamos comprar, gastar, consumir, esbanjar. Desde então consumimos o tempo todo como se houvesse um buraco negro insaciável dentro de cada um nós e o objetivo final da existência fosse apenas este. O absurdo fato de que as relações humanas não são mais mediadas pela solidariedade, pela cooperação e sobrevivência conjunta, mas mediadas pelo capital, pelo consumo e por objetos mágicos de consumo que adquirem vida e se tornam a razão da existência humana.

A sociedade é um mito. Ao contrário do progresso imaginado no tempo das Luzes, nos degeneramos, regredimos e nos tornamos a cultura mais estranha, irracional e também, ao contrário de qualquer outra cultura selvagem, a menos espirituosa. Não temos nenhum deus senão o próprio capital. Mas para nos salvar é preciso que sacrifiquemos todas essas almas ao grande deus metamorfoseado em animais estampados em mágicos pedaços de papéis.

- Alan Teixeira


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Pertencer



Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus. Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.

Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!


- Clarice Lispector,
A Descoberta do Mundo

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Fatalidade do Não


A palavra de que eu gosto mais é não. Chega sempre um momento na nossa vida em que é necessário dizer não. O não é a única coisa efetivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que é tende ...sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. É o momento em que é necessário dizer não. A fatalidade do não - ou a nossa própria fatalidade - é que não há nenhum não que não se converta em sim. Ele é absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim.

José Saramago
in 'Folha de S. Paulo (1991)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Ler é prolongar a vida

Tenho a impressão de que ler é prolongar a vida. Quantas vezes lemos um livro e nos acompanha aquela sensação de sermos sugados para uma outra realidade e, muitas vezes, parece que nos é permitido viver uma outra vida. Como se cada leitura fosse uma viagem por lugares antes insondáveis pela nossa própria imaginação. Ao fim de cada viagem, retornamos à nossa própria existência como se durante a leitura estivéssemos de férias da nossa própria vida. E como voltamos mais sábios ao fim de cada viagem. Se o tempo de cada viagem fosse acrescentado a nossa idade, facilmente poderíamos viver mais do que Matusalém.  

- Alan Teixeira

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Amor é uma espécie de preconceito

O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.

- Charles Bukowiski

terça-feira, 3 de julho de 2012

O Defeito da Juventude

Por isso, um homem jovem não é bom ouvinte de aulas de ciência política. Com efeito, ele não tem experiência dos fatos da vida, e é em torno destes que giram as discussões referentes a ciência política; além disso como os jovens tendem a seguir suas paixões, esse estudo ser-lhes-à vão e improfícuo, já que o fim ao qual se visa não é o conhecimento, mas a ação. 

E não faz diferença alguma que seja jovem na idade ou no caráter; o defeito não é questão de idade, e sim do modo de viver e de perseguir os objetivos ao sabor da paixão. Para tais pessoas, assim como para os incontinentes, a ciência não é proveitosa; mas para os que desejam e agem de acordo com a razão, o conhecimento desses assuntos será muito vantajoso. 

- Aristóteles,
Ética a Nicômaco

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Queda


Ergui a cabeça e ia acender um cigarro, o cigarro da satisfação, quando, no mesmo momento, estalou um riso atrás de mim. Surpreendido, voltei-me bruscamente: não havia ninguém. Fui até ao parapeito: nenhum batelão, nenhum barco. Virei-me para a ilha e de novo ouvi o riso pelas minhas costas, um pouco mais distante, como se fosse a descer o rio. Fiquei ali, imóvel. O riso diminuía, mas eu ouvia-o ainda mais distintamente por detrás de mim, vindo de parte nenhuma, a não ser das águas. Ao mesmo tempo, percebia que o meu coração batia precipitadamente. Compreenda-me bem, este riso nada tinha de misterioso; era um riso bom, natural, quase amigável, que repunha as coisas no seu lugar. Em breve, aliás, deixei de o ouvir. Alcancei os cais, meti pela rua Dauphine, comprei cigarros, sem necessidade alguma. Estava aturdido, respirava a custo. Nessa noite, telefonei para um amigo que não estava em casa. Hesitava em sair, quando, de repente, ouvi rir sob as minhas janelas. Abri. Efectivamente, no passeio, alguns jovens despediam-se alegremente. Fechei de novo as janelas, encolhendo os ombros; ao fim e ao cabo, eu tinha um processo para estudar. Dirigi-me à casa de banho para beber um copo de água. A minha imagem sorria no espelho, mas pareceu-me que o meu sorriso era dúbio…

- Albert Camus,
in A Queda

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O TEATRO DAS IDEIAS

Já podemos, assim que tivermos força de espírito para tanto, livrar-nos do absurdo do nirvana, do pessimismo, do racionalismo, da teologia e de todos os outros subterfúgios aos quais nos agarramos por medo de olhar a vida de frente e nela ver não a realização de uma lei moral ou das deduções da razão, mas a satisfação de uma paixão que vem de dentro de nós e da qual não podemos nunca prestar contas. É natural que o homem se encolha diante da terrível responsabilidade que esse fato inexorável atira sobre ele. Todas as desculpas de seu acervo dissolvem-se diante de tal fato – “A mulher me tentou”; “A serpente me tentou”; “Não estava em mim naquela hora”; “Não queria fazer mal”; “Minha paixão falou mais alto que a razão”; “Era meu dever fazê-lo”; “A Bíblia diz que devemos fazê-lo”; “Todo mundo faz”; e coisas assim. Nada resta senão a confissão franca: “Fiz porque sou assim”. Todos detestam dizer isso. Querem acreditar que seus atos generosos são sua característica verdadeira e que suas maldades são aberrações ou produtos da força das circunstâncias.

- Bernard Shaw

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Um homem inteiramente inútil

Ótimo é aquele que de si mesmo conhece todas as coisas;
Bom, o que escuta os conselhos dos homens judiciosos.
Mas o que por si não pensa, nem acolhe a sabedoria alheia,
Esse é, em verdade, um homem inteiramente inútil.

- Hesíodo,
Os Trabalhos e os Dias,

apud


Aristóteles,
Ética a Nicômaco

domingo, 24 de junho de 2012

Mochila Vazia


Quanto pesam as suas vidas? Imaginem que estão carregando uma mochila nas costas. Quero que sintam as alças nos ombros. Estão sentindo? Eu quero que a encham com tudo o que tem em suas vidas. Comecem com as coisas pequenas das prateleiras e gavetas, bugingangas e coleções. Sintam o peso aumentar. Agora acrescentem coisas maiores. Roupas, louças, abajures, roupa de cama, sua tv. Esta ficando pesado. Há coisas maiores ainda. Seu sofá, sua cama, sua mesa de cozinha. Coloquem tudo aí dentro. Seu carro, coloquem também. Sua casa, seja uma quitinete ou uma casa de dois quartos. Quero que coloquem tudo dentro dessa mochila. Agora tentem andar. É meio difícil não? É isso que fazemos diariamente. Nós carregams tanto peso que não podemos nos mover e não se enganem: mover-se é viver. Agora vou jogar a mochila no fogo. O que voces tirariam delas? Fotos? Fotos são para pessoas que não conseguem lembrar. Eu quero que deixem tudo queimar e se imaginem acordando amanhã sem nada. É bem estimulante não?

(Filme "Up in the air")

sábado, 23 de junho de 2012

A Irmandade Secreta

Edward Hopper
E mais uma coisa: havia um livro aberto sobre a mesa. Naquele café, ninguém jamais abrira um livro a mesa. Para Tereza, o livro era sinal de reconhecimento de uma irmandade secreta. De fato, contra o mundo de grosseria que a cercava, tinha uma só arma: os livros que tomava emprestados na biblioteca municipal; sobretudo os romances: lia-os em quantidade, de Fielding a Thomas Mann. Eles lhe ofereciam uma chance de evasão imaginária, arrancando-a de uma vida que não lhe trazia nenhum satisfação, mas tinham também para ela um sentido como objetos: gostava de passear na rua com livros debaixo do braço. Eram para ela o que a elegante bengala era para um dândi do século passado. Eles a distinguiam das outras.

- Milan Kundera,
A insustentável leveza do ser

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Há pessoas demais no mundo

Raul Alexandre

Há pessoas demais no mundo para que se encontre algo especial na humanidade
Pessoas demais neste país
Pessoas demais nesta cidade
Pessoas demais nas ruas
Pessoas demais nos supermercados,
nos bares,
nas estações de metrô
ou sentando seus traseiros iguais
nas cadeiras dos cinemas com seus filmes iguais
nos estofados de seus carros demais
nos seus rabos cheios de culpa

Há pessoas demais nesta casa
E há pessoas demais na minha vida para que eu consiga gostar de todas elas

Pessoas demais e sempre mais pessoas
Como se uma máquina obscena vivessse a cuspir humanos como manequins numerados
Ou uma imensa vagina insana sempre fértil a vomitar seus regaços sem trégua
Centenas de milhares de um lote
Outras centenas de milhares de outro
Milhões, bilhões e a multiplicação nunca cessa
Todas iguais, todas demais
Cada vez menos humanas
Cada vez mais animais
Canibais num banquete de reis
Pessoas demais no mundo e cada uma delas acreditando-se única
e perfeita
e especial
Todas na infindável busca por ser diferente
Atrás do seu pequeno e sonhado momento efêmero de fama
Com suas modas, filosofias, melancias, tinturas de cabelo, pseudopolícas e rasos intelectos

: nunca satisfeitas

Pessoas mais que formigas
Não mais interessantes que formigas
Nascendo e morrendo todos os dias sem nunca se cansar
Empilhando-se em edifícios, beliches, favelas
Sugando a alma umas das outras
Sugando o tempo e o espaço umas das outras
Implorando por um minuto de atenção umas das outras
Pessoas devorando pessoas
Embriagadas de sangue e suor e sexo
Pessoas fazendo pessoas para chamar de suas
Ludibriando a si mesmas acreditando-se amadas e queridas e insubstituíveis
Quando todas elas demais
Odeiam demais a si mesmas
E vendem barato seus corpos banais por um amor que desconhecem

Pessoas culpando Deus pelos seus fracassos de liquidação
Pessoas culpadas demais pelos seus enganos coletivos
Enlouquecendo e fazendo das suas próprias loucuras as novas leis
Trancafiando umas as outras em suas penitenciárias sociais
Propagando fome,
miséria,
guerras,
música ruim,
falsas religiões
e lixo e doenças e toda a merda que puder sair de seus cus voltados para o sol
Tudo pelo dinheiro
Tudo pelo agora
Tudo pelo que puder ser exclusivo para realizar seus sonhos de se tornarem deuses
grandes o suficiente para poder esmagar todas as outras com um tapa
E enfim poder tornar ao estado natural
Nuas
No silêncio perfeito da ausência dos outros
Um sibilar melodioso do chocálho de uma cascável
e o fruto proibido.

- Charles Bukowiski,
O Amor é um Cão dos Diabos

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Morte da Política

É um costume moderno este de entregar ao estado o dever de todas as coisas: educação, segurança, saúde, lazer como um mecanismo autônomo. Houve um tempo em que isso era dever dos próprios cidadãos. Mas há quem suspeite de não haja mais cidadãos. Não é de  se assustar que a literatura ou o cinema, como a voz de profetas, aponte para a morte da política tão bem representada pela nossa submissão diante do estado e das tecnologias. 

- Alan Teixeira

terça-feira, 19 de junho de 2012

Toda a aproximação é um conflito


Que somos todos diferentes, é um axioma da nossa naturalidade. Só nos parecemos de longe, na proporção, portanto, em que não somos nós. A vida é, por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que que nunca se definem, e são, um e outro, ninguéns.

Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo. O homem que sonha em cada homem que age, se tantas vezes se malquista com o homem que age, como não se malquistará com o homem que age e o homem que sonha no Outro?

Somos forças porque somos vidas. Cada um de nós tende para si próprio com escala pelos outros. Se temos por nós mesmos o respeito de nos acharmos interessantes (...) Toda a aproximação é um conflito. O outro é sempre o obstáculo para quem procura. Só quem não procura é feliz; porque só quem não busca, encontra, visto que quem não procura já tem, e já ter, seja o que for, é ser feliz, como não pensar é a parte melhor de ser rico.

Olho para ti, dentro de mim, noiva suposta, e já nos desavimos antes de existires. O meu hábito de sonhar claro dá-me uma noção justa da realidade. Quem sonha de mais precisa de dar realidade ao sonho. Quem dá realidade ao sonho tem que dar ao sonho o equilíbrio da realidade. Quem dá ao sonho o equilíbrio da realidade, sofre da realidade de sonhar tanto como da realidade da vida e do irreal do sonho como do sentir a vida irreal.

Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos.


Fernando Pessoa,
'O Rio da Posse'

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Impossível estarmos juntos


Edvard Munch, Cat
É impossível no mundo
estarmos juntos
ainda que do meu lado adormecesses.
O véu que protege a vida
nos separa.
O véu que protege a vida
nos protege.
Aproveita, pois,
que é tudo branco agora,
à boca do precipício,
neste vórtice
e fala
nesta clareira aberta pela insônia
quero ouvir tua alma
a que mora na garganta
como em túmulos
esperando a hora da ressurreição,
fala meu nome
antes que eu retorne
ao dia pleno,
à semi-escuridão.

.
- Adélia Prado

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O Mundo Sem Mim


Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim. Há o mundo continuando a fazer o que faz. E eu não estou lá. Muito estranho. Penso no caminhão do lixo passando e levando o lixo e eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível. E pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser verdadeiramente descoberto. E todos aqueles que tinham medo de mim ou me odiavam vão subitamente me aceitar. Minhas palavras vão estar em todos os lugares. Vão se formar clubes e sociedades. Será nojento. Será feito um filme sobre a minha vida. Me farão muito mais corajoso e talentoso do que sou. Muito mais. Será suficiente para fazer os deuses vomitarem. A raça humana exagera em tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância.

Charles Bukowski

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Equações

‎- Você e eu talvez não possamos ver além de nossas escolhas, mas aquele homem não consegue ver além de escolha nenhuma.

- Por que não?

- Ele não as entende. Não tem como. Para ele escolhas são variáveis de uma equação. Uma por vez, cada variável precisa ser resolvida e provada. Essa é a função dele: equilibrar a equação.

- E qual o seu propósito?

- Desequilibrá-la.

(Matrix Revolutions)

domingo, 10 de junho de 2012

Para Quem a Verdade?

Até o presente, os erros foram as forças mais ricas em consolação: agora se espera os mesmos serviços das verdades reconhecidas, mas elas se fazem esperar um pouco demais. 

Como, as verdades não seriam talvez mais apropriadas para consolar? - Esse seria, pois, um argumento contra as verdades? Que têm elas de comum com o estado doentio dos homens sofredores e degenerados, para que se possa exigir delas que lhes sejam úteis? 

Não se prova nada contra a verdade de uma planta ao constatar que ela não contribui de alguma maneira para a cura dos homens doentes. Mas outrora havia a convicção de que o homem era o objetivo da natureza, a poto de admitir sem cerimônia que o conhecimento não podia revelar nada que não fosse salutar e útil ao homem e, mais ainda, que não poderia a nenhum preço haver outra coisa no mundo. 

- Talvez de tudo isso se poderia concluir que a verdade, como entidade e conjunto, só existe para as almas contemporaneamente poderosas e desinteressadas, alegres e pacíficas (como era a de Aristóteles), e que essas almas seriam as únicas a procurá-la realmente: pois os outros procuram remédios para seu uso, qualquer seja, aliás, o orgulho que tem para vangloriar-se  de seu intelecto e da liberdade desse intelecto - eles não procuram a verdade. Aí está porque a ciência proporciona tão pouca alegria verdadeira a esses homens que a recriminam por sua frieza, por sua aridez e por sua desumanidade: esse é o juízo dos doentes sobre a disposição daqueles que são saudáveis. 

- Os deuses da Grécia também não tinham grande tino para consolar; quando o povo grego acabou por cair doente, ele também foi uma das razões por que semelhantes deuses pereceram.

Friedrich Nietzsche,
Aurora

sábado, 9 de junho de 2012

Um Bom Livro

Quantos homens marcaram a data de uma nova época de suas vidas com a leitura de um livro! Talvez exista o livro que nos explique nossos milagres e nos revele outros. As coisas atualmente inexpressáveis, talvez as encontremos expressas em algum lugar.

- Henry David Thoreau, 
Walden

domingo, 3 de junho de 2012

Minha Tragédia

A minha vida, tragédia caída sob a pateada dos anjos e que só o primeiro acto se representou. 

Amigos, nenhum. Só uns conhecidos que julgam que simpatizam comigo e teriam talvez pena se um comboio me passasse por cima e o enterro fosse em um dia de chuva. 


O prémio natural do meu afastamento da vida foi a incapacidade, que cirie nos outros, de sentirem comigo. Em torno a mim há uma auréola de frieza, uma halo de gelo que repele os outros. Ainda não consegui não sofrer com minha solidão. Tão difícil é obter aquela distinção de espírito que permeia ao isolamento ser um repouso sem angústia.

Nunca dei crédito à amizade que me mostraram, como não teria dado ao amor, se mo houvessem mostrado, o que aliás, seria impossível. Embora nunca tivesse ilusões a respeito daqueles que se diziam meus amigos, consegui sempre sofrer desilusões com eles – tão complexo e sutil é o meu destino de sofrer.

Nunca duvidei que todos me traíssem; e pasmei sempre quando me traíram. Quando chegava o que eu esperava, era sempre inesperado para mim. Compreendi que era impossível a alguém amar-me, a não ser que lhe faltasse de todo o senso estético – e então eu o desprezaria por isso; e que mesmo simpatizar como não podia passar de um capricho da indiferença alheia.


Ver claro em nós e em como os outros nos vêem! Ver esta verdade frente a frente! E no fim o grito de Cristo no Calvário, quando viu, frente a frente, a sua verdade; Senhor, senhor, por que me abandonaste?



- Fernando Pessoa,

Livro do Desassossego

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A Revolução da Bondade


Vladimir Kush

Acho que a grande revolução, e o livro «Ensaio sobre a Cegueira» fala disso, seria a revolução da bondade. Se nós, de um dia para o outro, nos descobríssemos bons, os problemas do mundo estariam resolvidos. Claro que isso nem é uma utopia, é um disparate. Mas a consciência de que isso não acontecerá, não nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princípios éticos. Pelo menos a sua passagem pelo este mundo não terá sido inútil e, mesmo que não seja extremamente útil, não terá sido perniciosa. Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática acção perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes.

José Saramago, 
" Folha de S. Paulo, Outubro 1995"

terça-feira, 29 de maio de 2012

Flor do Mal



Gostavas de tragar o universo inteiro,
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,
Para se exercitar no jogo singular,
Por dia um coração precisa devorar.
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras
Das barracas de feira, e prendem como garras;
Usam com insolência os filtros infernais,
Levando a perdição às almas dos mortais.

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?
Nenhum espelho há que te mostre a verdade?
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto.
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado,
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —
Vai recorrer a ti para um génio formar?

Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par.

- Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" -

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mil Vidas a Viver

Deixei a mata por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez me parecesse que eu tinha várias outras vidas a viver, e não podia dedicar mais tempo a àquela. É notável a facilidade e a insensibilidade com que caímos numa determinada rotina, e construímos uma trilha batida para nós mesmos. (...) Como, então, devem ser gastas e empoeiradas as estradas do mundo, como são fundos os sulcos da tradição e da conformidade! Eu não quis pegar uma cabine de primeira classe sob o tombadilho, mas viajar de segunda, na frente do mastro e no convés do mundo, pois ali podia enxergar melhor o luar entre as montanhas.

Henry David Thoreau,
Walden

domingo, 27 de maio de 2012

A Arte Enquanto Criação

Jan Vermeer
A ruína da influência aristocrática criou uma atmosfera de brutalidade e de indiferença pelas artes, onde uma sensibilidade fina não tem refúgio. Dói mais, cada vez mais, o contato da alma com a vida. O esforço é cada vez mais doloroso, porque são cada vez mais odiosas as condições exteriores do esforço. A ruína dos ideais clássicos fez de todos artistas possíveis, e portanto maus artistas. Quando o critério da arte era a construção sólida; a observância cuidadosa das regras - poucos podiam tentar ser artistas, e grande parte desses são muito bons. Mas quando a arte passou de ser tida como criação, para passar a ser tida como expressão de sentimentos, cada qual podia ser artista, porque todos têm sentimentos.
- Fernando Pessoa

sábado, 26 de maio de 2012

O Abutre


Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.

- É que estou sem defesa - respondi - Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.

- Mas deixar-se torturar dessa maneira! - disse o senhor - Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? - disse eu - Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente - disse o senhor - É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora?
- Não sei lhe dizer. - respondi.
Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem - disse o senhor - Vou o mais depressa possível.

O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.

- Franz Kafka,
O Abutre

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Amor e Morte

Edvard Munch, Cat
Nem no amor nem na morte pode-se penetrar duas vezes - menos ainda que no rio de Heráclito. Eles são, na verdade, suas próprias cabeças e seus próprios rabos, dispensando e descartando todos os outros. (...) Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer. E não se pode aprender a arte ilusória - inexistente, embora ardentemente desejada - de evitar suas garras e ficar fora de seu caminho. Chegando o momento, o amor e a morte atacarão - mas não se tem a mínima ideia de quando isso acontecerá.  Quando acontecer, vai pegar você desprevenido. 

Zygmunt Bauman,
Amor Líquido


domingo, 20 de maio de 2012

Somos o Tempo

Somos o tempo. Somos a famosa parábola de Heráclito o Obscuro. Somos a água, não o diamante duro, a que se perde, não a que repousa. Somos o rio e somos aquele grego que se olha no rio. Seu semblante muda na água do espelho mutante, no cristal que muda como o fogo. Somos o vão rio prefixado, rumo a seu mar. Pela sombra cercado. Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa. A memória não cunha sua moeda. E no entanto há algo que se queda e no entanto há algo que se queixa.

- Jorge Luis Borges

sábado, 19 de maio de 2012

Construir sentidos

A gente tem que se enganar para sobreviver; tem que fingir que as coisas têm sentido; tem que levar as pessoas a acreditarem que sabemos o que estamos fazendo. Apenas jogamos o jogo, não temos escolha. Nascemos num determinado meio, estamos condicionados a ele. Podemos escapar um pouco aqui e ali, como faríamos numa canoa furada, mas não há saída completa, não há tempo para ela, a gente precisa alcançar o porto, ou imagina que precisa. Nunca o alcançaremos, é claro... A canoa afundará antes disso.

- Henry Miller


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Por que é bela arte?


Por que é bela a arte? Porque é inútil. Por que é feia a vida? Porque é toda fins e propósitos e intenções. Todos os seus caminhos são para ir de um ponto para outro. Quem nos dera o caminho feito de um lugar donde ninguém parte para um lugar onde ninguém vai.

- Fernando Pessoa, 
Livro do Desassossego


quarta-feira, 16 de maio de 2012

Estranho

Há vários dias que passo diante da minha estante de livros e um título que há algum tempo já li me atrai. O livro possui uma capa verde com uma faixa preta, um desenho dos ombros de um homem de terno e gravata, e uma luz amarela desbotada no lugar do rosto. Nada de extraordinário. Paro diante dele, olho, penso na última leitura, mas antes de o retirar do seu confortável lugar, me afasto e volto aos meus afazeres. Da última vez, porém, não pude resistir. Retirei o livro, folheei algumas páginas, li alguns trechos aleatórios e o coloquei no lugar novamente, de certa forma aliviado. Mais um dia se passou, tive a breve impressão de o ouvir me chamar, como se tivesse algo importante a me contar, me contive por um instante, a situação já estava fugindo controle, mas não pude resistir e obrigado por uma força estranha peguei o livro. Mas por que este livro entre centenas de outros? Resolvi então o reler com a missão de resolver o mistério. É um diário datado de 1932. A leitura é agradável. Não consigo parar de ler. Dois trechos me chamam a atenção "Tínhamos um medo horrível dele, porque sentíamos que era um homem sozinho. (...) É isso então que me espera? Pela primeira vez me incomoda estar só. Gostaria de falar com alguém sobre o que está me acontecendo, antes que seja tarde demais, antes que eu comece a assustar garotinhos."* Após esta frase parei de ler e fiquei pensando, afinal não me lembro de ter lido este trecho na primeira vez que o li. Será que é o mesmo livro? Talvez não possamos ler o mesmo livro duas vezes. Antes olhava para minha estante e me orgulhava de todos os livros que havia lido, mas agora olho e vejo um monte de livros estranhos. De súbito tudo começa a se metamorfosear. Já não reconheço nada, tudo é estranho.  

- Alan Teixeira




________________________________________________
* A Náusea, J. P. Sartre

terça-feira, 15 de maio de 2012

O Nada

Edward Hopper, Nighthawks, 1942
Lancei um olhar ansioso ao meu redor: só o presente, nada além do presente. Móveis leves e sólidos, incrustados em seu presente, uma mesa, uma cama, um armário de espelho - e eu próprio. Revelava-se a verdadeira natureza do presente: era o que existe e tudo o que não era presente não existia. O passado não existia. De modo algum. Nem nas coisas, nem mesmo em meu pensamento. Por certo fazia muito tempo que eu compreendera que o meu me escapara. Mas até então pensava que simplesmente se retirara do meu alcance. Para mim o passado era apenas uma aposentadoria: era uma outra maneira de existir, um estado de férias e de inação; cada acontecimento, quando seu papel findava, se arrumava sensatamente, por si próprio, numa caixa e se tornava acontecimento honorário: é tão difícil imaginar o nada! Agora eu sabia: as coisas são inteiramente o que parecem - e por trás delas... não existe nada. 

- Jean Paul Sartre,
A Náusea

domingo, 13 de maio de 2012

Viver, Deliberadamente Viver

Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido. Não queria viver o que não era vida, tão caro é viver; e tampouco queria praticar a resignação, a menos que fosse absolutamente necessário. Queria viver profundamente e sugar a vida até a medula, viver com tanto vigor e de forma tão espartana que eliminasse tudo aquilo que não fosse vida, recorta-lhe um largo talho e passar-lhe rente um alfanje, acuá-la num canto e reduzi-la a seus termos mais simples e, se ela se revelasse mesquinha, ora, aí então eu pegaria sua total e genuína mesquinharia e divulgaria ao mundo essa mesquinharia; ou, se fosse sublime, iria saber por experiência própria, e poderia apresentar um relato fiel...

- Henry David Thoreau
Walden
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...