"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Acordo de súbito

Leonid Afremov
De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anônima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou. 
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas idéias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o ator mas os gestos dele. 
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu. 
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terremoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara. 
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê. 
É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. (...) Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha, sem saber como ali chegou (grifo meu); e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo — desde a nascença e a consciência —, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural. 
Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-lhes os atos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demônio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mônada íntima, da palavra mágica da alma. Mas uma luz súbita cresta tudo, consome tudo. Deixa-nos nus até de nós. 
Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir. 

(Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego)

2 comentários:

Evandro Oliveira disse...

Alan,
Acho que ter um blog significa ter um espaço para expor nossos sonhos, desejos, aquilo que nos toca e move nosso coração, nossa indignação, nossos gostos musicais, os filmes e livros que marcaram nossa vida.
Com três meses de existência o blog Sabor da Letra fez amigos, se emocionou, se indignou, riu, aprendeu muito com cada um dos blogs abaixo, e é por considerar que seu blog tem o doce sabor da letra é que entrego o “Selo Esse blog tem Sabor”
Passa no meu blog e pegue-o, caso tenha interesse.

Abraços
Evandro Oliveira

http://sabordaletra.blogspot.com/

Evandro Oliveira disse...

Não sou cristão, mas compreendo esse dia como importante para todo o ocidente, e sei que uma forte energia de bondade domina os corações nesse momento. Espero que essa data tenha um significado maior do que essa onda consumista que se tornou para os povos ocidentais, e que o desejo de paz, amor e compreensão domine seu coração.
Feliz Natal!

Passe no blog, tenho uma postagem sobre um livro que adoro.

http://sabordaletra.blogspot.com/

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