"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)

quarta-feira, 12 de março de 2014

Eu e o Nada

Divorciei-me do mundo lentamente. Vi grandes construções ruírem, desabarem, sem restar pedra sobre pedra. Vi morrer lentamente os seus arquitetos. Ilusões destruídas pelas duras marteladas da verdade. Deparei-me com o nada - de homem para abismo e de abismo para homem. Só então pude compreender. O mundo que deixou de ser familiar, nunca existiu senão como ilusão. Eu era o fantasma de mim mesmo. Agora, diante do abismo da indeterminação, reconheço minha única condição - condenado a ser livre. Abrem-se diante de mim todos os caminhos. Não mais um fantasma. Agora um autêntico homem!

Alan Teixeira

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A Insuficiência da Técnica

"Não será que em vez de correr atrás dos artefatos da época, na forma de positivismo lógico e epistemologia, o pensamento deveria assumir um outro caráter? Sem dúvida que não poderemos saltar para fora do mundo técnico. Ele constitui uma condição necessária da e para a existência moderna. Mas não é uma condição suficiente. Pois em sua insuficiência não atinge horizonte a partir do qual a existência do homem poderá talvez vir a ser libertada."

Martin Heidegger

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Restauradores da Humanidade

"A violência dos opressores, que os faz também desumanizados, não instaura uma outra vocação - a dor ser menos. Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscarem recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealisticamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade de ambos. E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos - libertar-se a si e aos opressores "

- Paulo Freire, 
Pedagogia do Oprimido

sábado, 21 de dezembro de 2013

Tempos de Grande Perigo

“São os tempos de grande perigo em que aparecem os filósofos. Então, quando a roda rola com sempre mais rapidez, eles e a arte tomam o lugar dos mitos em extinção. Mas projetam-se muito à frente, pois só muito devagar a atenção dos contemporâneos para eles se volta”.

Friedrich Nietzsche, 
in Vontade de Poder


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O Pretenso Isolamento: Razão x Emoção

“Saídos de um época transacta da representação, estamos ainda habituados a separar a cabeça e o coração e a considerar o pensamento e a sensibilidade, ou seja qual for o nome que a tal diferença se dê, quase como duas entidades independentes e entre si indiferentes; o influxo do ensino no carácter surge então como longínquo ou casual. Mas, na realidade, o espírito humano, que é um só, não alberga em si naturezas tão díspares; em toda a unilateralidade, que nele é possível e que se refere apenas às forças singulares subordinadas, mais distantes da raiz do seu ser, essas diferenças profundas, que se reúnem imediatamente no seu íntimo, não se podem desagregar nesse pretenso isolamento.”

Georg W. F. Hegel,
14 de Setembro de 1810

domingo, 15 de dezembro de 2013

Novos Fundamentos

Fatima Seehagen
O "movimento" próprio das ciências se desenrola através da revisão mais ou menos radical e, para elas próprias, não transparente dos conceitos fundamentais. O nível de uma ciência determina-se pela sua capacidade de sofrer uma crise em seus conceitos fundamentais. Nessas crises imanentes da ciência, vacila e se vê abalado o relacionamento das investigações positivas com as próprias coisas questionadas. Hoje em dia, surgem tendências em quase todas as disciplinas no sentido de colocar as pesquisas em novos fundamentos. 

Martin Heidegger, 
Ser e Tempo

sábado, 14 de dezembro de 2013

Ética e Felicidade

"Esta investigação diz respeito ao que há de mais importante: viver para o bem, ou viver para o mal." Sócrates, ao dialogar assim com Glauco sobre as razões do infortúnio dos tiranos, não poderia dizer melhor. Com efeito, o que pode existir de mais valioso na vida, quer dos indivíduos, quer dos povos, senão alcançar a felicidade? Pois é disto exatamente que se trata quando falamos em ética. Podemos errar de caminho na nossa vida, e nos embrenharmos perdidamente, como Dante, na selva da escuridão. Jamais nos enganaremos, porém, quanto à escolha do nosso destino: nunca se ouviu falar de alguém que tivesse a infelicidade por propósito ou programa de vida. 

Fábio Konder Comparato, 
Ética

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A Vida e o Saber


Leonid Afremov
O mero filósofo é geralmente uma personalidade pouco admissível no mundo, pois supõe-se que ele em nada contribui para o benefício ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunicação com os homens e envolto em princípios e noções igualmente distantes de sua compreensão. Por outro lado, o mero ignorante é ainda mais desprezado, pois não há sinal mais seguro de um espírito grosseiro, numa época e uma nação em que as ciências florescem, do que permanecer inteiramente destituído de toda espécie de gosto por estes nobres entretenimentos. Supõe-se que o caráter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os negócios; mantém na conversação discernimento e delicadeza que nascem da cultura literária; nos negócios, a probidade e a exatidão que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um caráter tão aperfeiçoado, nada pode ser mais útil do que as composições de estilo e modalidade fáceis, que não se afastam em demasia da vida, que não requerem, para ser compreendidas, profunda aplicação ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de sábios preceitos, aplicáveis em qualquer situação da vida humana. Por meio de tais composições, a virtude toma-se amável, a ciência agradável, a companhia instrutiva e a solidão um divertimento.

David Hume, 
Investigações Acerca do Entendimento Humano

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Esclarecimento

Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado desta menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento. 

Immanuel Kant

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Cantares















Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Gosto de ver-los pintar-se
de sol e grená, voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se…

Nunca persegui a glória

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar

Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar…

Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar”…

Golpe a golpe, verso a verso…

Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe viram chorar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso…

Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”

Golpe a golpe, verso a verso.

(Antonio Machado)

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Em Defesa da Ética

Daí a crítica permanentemente presente em mim à malvadez neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexível ao sonho e à utopia. Daí o tom de raiva, legítima raiva, que envolve o meu discurso quando me refiro às injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o meu nenhum interesse de, não importa que ordem, assumir um ar de observador imparcial, objetivo, seguro,  dos fatos e dos acontecimentos. Em tempo algum pude ser um observador "acinzentadamente" imparcial, o que, porém, jamais me afastou de uma posição rigorosamente ética. Quem observa o faz de um certo ponto de vista, o que não situa o observador em erro. O erro na verdade não é ter um certo ponto de vista, mas absolutizá-lo e desconhecer que, mesmo do acerto de seu ponto de vista é possível que a razão ética nem sempre esteja com ele. 

Paulo Freire,
Pedagogia da Autonomia

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A pena da galhofa à melancolia

AO VERME

QUE

PRIMEIRO ROEU

AS FRIAS CARNES 

DO MEU CADÁVER 

DEDICO 

COMO SAUDOSA LEMBRANÇA 

ESTAS 

MEMÓRIAS PÓSTUMAS

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte, e quanto muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.
Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote.
Machado de Assis,
Memórias Póstumas de Bras Cubas

domingo, 3 de novembro de 2013

A estupidez do direito

kandinskyy
Em geral, o direito é tão estúpido quanto os imperativos que estabelece. Mas o pior é quando legaliza situações que são legais por si só:

o direito à água, direito ao ar, direito ao desejo, direito à paternidade.

O que quer dizer, aliás, do "direito à vida"? Se é que ele expressa o que quer dizer, significa que a vida perdeu realmente sua evidência.

O direito acaba agindo como invocação desesperada das qualidades perdidas. É assim que se verá, provavelmente logo, surgir face à extensão da estupidez, um " direito à inteligência".


Jean Baudrillard

sábado, 2 de novembro de 2013

Paz...

Edward Hopper
E de fato você me recrimina por isso como se fosse culpa minha, como se por acaso eu tivesse podido, com uma virada do volante, conduzir tudo para outra direção, ao passo que você não tem a mínima culpa, a não ser talvez o fato de ter sido bom demais para mim. 

Esse seu modo usual de ver as coisas eu só considero justo na medida em que também acredito que você não tem a menor culpa pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho a menor culpa. Se pudesse levá-lo a reconhecer isso, então seria possível, não uma nova vida - para tanto nós dois estamos velhos demais - mas sem dúvida uma espécie de paz...

- Franz Kafka, 
Carta ao Pai

domingo, 13 de outubro de 2013

Amo, não menos o homem, mas mais a Natureza...

Há um prazer nas florestas desconhecidas: Um entusiasmo na costa solitária: Uma sociedade onde ninguém penetra. Pelo mar profundo e música em seu rugir:  Amo, não menos o homem, mas mais a Natureza...

Lord Byron
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