"A literatura tem essa magia de nos tornar contemporâneos de quem quisermos." (Inês Pedrosa)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Da árvore da Montanha

Zaratustra agarrou a árvore que o mancebo se encontrava e disse:

"Se eu quisesse sacudir esta árvore com as minhas mãos não poderia; mas o vento que não vemos açoita-a e dobra-a como lhe apraz. Também a nós mãos invisíveis nos açoitam e dobram rudemente".

"Por que te assustas? O que sucede a árvore também sucede ao homem. Quanto mais se quer erguer para o alto e para a luz, mais vigorosamente enterra as suas raízes para baixo, para o tenebroso e profundo: para o mal."

"Dizias a verdade, Zaratustra - disse o mancebo. Já não tenho confiança em mim desde que quero subir às alturas, e já nada tem confiança em mim. A que se deve isso? Eu me transformo muito depressa: o meu hoje contradiz o meu ontem. Com freqüência salto degraus quando subo, coisa que os degraus não me perdoam. Quando chego em cima sempre me encontro só. Ninguém me fala; o frio da solidão me faz tiritar. Que é que quero, então, nas alturas?"

Zaratustra olhou atentamente para a árvore a cujo pé se encontrava e falou assim:

"Esta árvora está solitária na montanha. Cresce muito sobranceira aos homens e aos animais. E se quisesse falar ninguém haveria que a pudesse compreender, de tanto que cresceu. Agora espera, e continua esperando. Que esperará então? Habita perto demais das montanhas: acaso esperarás um raio?" ...

"Ah, eu conheci nobres que perderam a sua mais elvada esperança. E depois, caluniaram todas as elevadas esperanças. Desde então tem vivido abertamente com minguadas aspirações, e dificilmente traçam metas para mais de um dia.

'O espírito é também voluptouosidade' - diziam. E então se quebraram as asas do seu espírito; arrasta-se agora de um lado para o outro, maculando tudo quanto consome.

Noutro tempo pensavam fazer-se heróis; agora são folgazões. O herói é para eles aflição e espanto.

Mas por meu amor e minha esperança te aconselho: não expulses para longe de ti o herói que há na tua alma! Santifica a tua mais elevada esperança!"

Assim Falou Zaratustra


(Friedrich Nietzsche, in Assim Falou Zaratustra)


E dentre nós, quais são árvores da montanha e quais são plantas rasteiras e ervas daninhas? 

2 comentários:

Bento Sales disse...

Alan, eu tenho esse livro, mas ainda não tive tempo para lê-lo. Vi, neste texto, o quanto estou perdendo.

Parabéns pela postagem!

Richard Mathenhauer disse...

Olá, meu Caro Filósofo.

Embora sendo um grande amante de Niti, confesso que nunca terminei "Assim Falou Zaratustra".

Com admiração,

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